Mitos sobre fertilidade circulam com tanta naturalidade que muitos casais os tratam como verdade sem questionar. Posições sexuais milagrosas, pílula que causa infertilidade, a ideia de que fertilidade é só problema feminino: tudo isso atrapalha quem está tentando engravidar porque desvia o foco do que realmente funciona. A seguir, desmontamos 10 dos mitos mais comuns usando o que a ciência tem a dizer.
Mito 1: “A ovulação sempre acontece no dia 14 do ciclo”
A verdade: O dia 14 vale como referência apenas para ciclos de exatos 28 dias, e mesmo assim com variação. Um estudo publicado no BMJ com mais de 600 ciclos mostrou que apenas 30% das mulheres ovulam entre os dias 10 e 17. A fase folicular, que vai da menstruação à ovulação, é a que mais varia de mulher para mulher e de ciclo para ciclo. Quem depende dessa regra para programar relações pode estar errando o alvo por vários dias.
A forma confiável de saber quando a ovulação se aproxima é observar o muco cervical e usar testes de LH.
Mito 2: “Ficar com as pernas para cima depois da relação ajuda”
A verdade: Os espermatozoides que vão fecundar o óvulo entram no muco cervical em questão de minutos. A partir dali, a progressão deles é ativa (eles nadam) e não depende da gravidade. Nenhum estudo controlado demonstrou que elevar as pernas ou os quadris após a relação aumente a taxa de concepção.
Ficar deitada alguns minutos não faz mal, mas não é o que vai fazer a diferença. O que faz diferença é o timing dentro da janela fértil.
Mito 3: “A pílula anticoncepcional causa infertilidade”
A verdade: A evidência é clara: a pílula não causa infertilidade a longo prazo. A maioria das mulheres retoma a ovulação dentro de 1 a 3 meses após a interrupção. Algumas podem levar até 6 meses para regularizar o ciclo, mas isso está dentro do esperado.
O que acontece em alguns casos é que a pílula mascara condições pré-existentes, como SOP ou endometriose, que só se manifestam quando o uso é interrompido. A impressão é de que a pílula causou o problema, quando na verdade ele já existia.
Mito 4: “Fertilidade é problema da mulher”
A verdade: 40 a 50% dos casos de dificuldade para engravidar envolvem fatores masculinos, segundo a ASRM. Em cerca de um terço dos casos a causa é exclusivamente masculina. Investigar apenas a mulher enquanto o homem não faz sequer um espermograma é desperdiçar tempo e dinheiro.
Detalhamos o que o espermograma avalia e como interpretar resultados no artigo sobre fertilidade masculina e espermograma.
Mito 5: “Existe uma posição sexual que aumenta as chances”
A verdade: A ASRM é direta sobre isso: não há evidência de que qualquer posição sexual aumente a probabilidade de concepção. Os espermatozoides são depositados no fundo da vagina independentemente da posição e entram no canal cervical por conta própria.
O que realmente importa: ter relações durante a janela fértil, com frequência de 1 a 2 dias. O resto é detalhe sem impacto.
Mito 6: “O homem não tem relógio biológico”
A verdade: Tem, sim. É mais gradual que o feminino, mas existe. A partir dos 40 anos, estudos mostram redução da motilidade espermática, aumento na fragmentação do DNA e maior tempo para concepção. A idade paterna avançada também está associada a riscos ligeiramente maiores de condições como autismo e esquizofrenia na prole.
Abordamos esse tema em profundidade no artigo sobre fertilidade depois dos 35.
Mito 7: “Se relaxar, engravida”
A verdade: O estresse crônico pode prejudicar a fertilidade, isso é verdade. Cortisol elevado de forma persistente interfere nos hormônios reprodutivos. Mas reduzir a questão a “é só relaxar” é simplificação que culpa o casal e ignora a biologia.
De acordo com o biomédico e nutricionista Murilo Murr, “dizer a um casal que está tentando há meses que ‘é só relaxar’ é como dizer a alguém com insônia que ‘é só dormir’. O estresse é um fator real, mas a solução é agir sobre ele de forma concreta, com sono adequado, atividade física, limites e, quando necessário, apoio profissional. Não é culpa de ninguém.”
Falamos sobre o impacto real do estresse e outros sabotadores no artigo sobre o que prejudica a fertilidade.
Mito 8: “Precisa ter relações todos os dias para engravidar”
A verdade: A ASRM recomenda relações a cada 1 a 2 dias durante a janela fértil. Relações diárias não aumentam significativamente a taxa de concepção em comparação com dias alternados. E para casais em que o homem tem parâmetros seminais no limite, dias alternados podem ser até melhores, pois permitem a reposição da concentração espermática.
Transformar a tentativa em obrigação diária gera pressão que pode prejudicar tanto o relacionamento quanto a fertilidade (via estresse).
Mito 9: “Se já tive um filho, não vou ter problema para ter outro”
A verdade: A infertilidade secundária (dificuldade para conceber após já ter tido pelo menos uma gravidez) é mais comum do que se imagina. A idade avançou, o corpo mudou, novos fatores podem ter surgido. Ter engravidado antes não garante que vai acontecer novamente com a mesma facilidade.
Se o casal está tentando o segundo filho e não consegue após os prazos recomendados para a faixa etária, a investigação se aplica da mesma forma. Veja os marcos no artigo sobre exames de fertilidade.
Mito 10: “Suplementos milagrosos resolvem qualquer problema de fertilidade”
A verdade: Alguns suplementos têm evidência sólida para fertilidade (ácido fólico, vitamina D, CoQ10, ômega-3, zinco), mas nenhum suplemento substitui investigação médica quando há um problema de base. Uma trompa obstruída não se desobstrui com vitamina. Um espermograma com azoospermia não melhora com zinco.
Suplementos são aliados quando usados dentro de um contexto que já foi investigado. Sem investigação, são aposta no escuro. E dosagens devem ser individualizadas com orientação profissional, como abordamos no guia completo de fertilidade para casais.
Perguntas Frequentes – Mitos Sobre Fertilidade
A pílula anticoncepcional causa infertilidade?
Não, esse também é um dos mitos sobre fertilidade mais comuns. A maioria das mulheres retoma a ovulação em 1 a 3 meses. A pílula pode ter mascarado condições como SOP ou endometriose, que aparecem quando o uso é interrompido.
Fertilidade é só problema da mulher?
Não. Cerca de 40 a 50% dos casos envolvem fatores masculinos. A investigação deve incluir os dois parceiros desde o início.
Existe uma posição sexual que aumenta as chances de engravidar?
Não. A ASRM afirma que a posição não influencia as taxas de gravidez. O que importa é o timing (janela fértil) e a frequência (a cada 1 a 2 dias).
É verdade que o homem não tem relógio biológico?
Mais um mito. A fertilidade masculina também declina, de forma mais gradual, a partir dos 40. Há redução da motilidade, aumento da fragmentação do DNA e maior tempo para concepção.
Um Plano Para Separar Mito de Estratégia na Fertilidade

Se vocês perceberam que muita coisa que ouviram até hoje sobre fertilidade não faz sentido — e querem focar no que realmente funciona — o Programa Casal + Fértil foi desenvolvido para trazer clareza e direção nesse processo.
Além de um método estruturado nos pilares da fertilidade, vocês passam por uma avaliação individual comigo, onde analiso histórico, exames e rotina — com foco em identificar erros comuns e ajustar o que realmente impacta as chances de gravidez.
A partir disso, vocês recebem um plano de ação personalizado para os próximos 90 dias, período essencial para melhorar a qualidade dos óvulos e dos espermatozoides e alinhar as tentativas de forma mais eficiente.
A proposta é eliminar o que não funciona e aplicar o que realmente faz diferença, aumentando as chances de uma gravidez natural de forma mais estratégica.
Leitura recomendada: Para o panorama completo e baseado em ciência, leia o guia completo de fertilidade para casais.
Sobre o autor: Murilo Murr é Biomédico (CRBM 17665) e Nutricionista (CRN3 51723) especializado em fertilidade natural e nutrição reprodutiva. Criador do Método Casal Mais Fértil, ajuda casais a prepararem o corpo para a concepção com base em evidências científicas. Saiba mais sobre o Murilo.
Disclaimer: Este conteúdo tem finalidade educativa e informativa. Não substitui consulta, diagnóstico ou tratamento médico. Cada caso é individual. Procure sempre orientação de profissionais de saúde qualificados.
Referências:
- Wilcox AJ, Dunson D, Baird DD. The timing of the “fertile window” in the menstrual cycle. BMJ. 2000;321(7271):1259-1262. doi:10.1136/bmj.321.7271.1259
- Practice Committee of ASRM. Optimizing natural fertility: a committee opinion. Fertility and Sterility. 2022;117(1):53-63. doi:10.1016/j.fertnstert.2021.10.007
- Haimovici F, Anderson JL, Bates GW, et al. Stress, anxiety, and depression of both partners in infertile couples are associated with cytokine levels and adverse IVF outcome. American Journal of Reproductive Immunology. 2018;79(4):e12832. doi:10.1111/aji.12832
- Johnson SL, Dunleavy J, Gemmell NJ, Nakagawa S. Consistent age-dependent declines in human semen quality: a systematic review and meta-analysis. Ageing Research Reviews. 2015;19:22-33. doi:10.1016/j.arr.2014.10.007
- Girum T, Wasie A. Return of fertility after discontinuation of contraception: a systematic review and meta-analysis. Contraception and Reproductive Medicine. 2018;3:24. doi:10.1186/s40834-018-0064-y

