A fertilidade depende do funcionamento coordenado de dois sistemas reprodutivos, não apenas de um. Cerca de 84% dos casais concebem dentro de 12 meses de relações regulares sem proteção, mas esse número cai para menos de 50% quando há fatores de risco não identificados, como idade acima de 35, estilo de vida inadequado ou deficiências nutricionais. Entender como a fertilidade funciona, dela e dele, é o primeiro passo para otimizar suas chances de forma natural e baseada em ciência.

Neste guia, vocês vão aprender:

Como funciona o sistema reprodutivo feminino

A fertilidade feminina gira em torno de um ciclo menstrual saudável, reserva ovariana adequada e uma série de eventos hormonais que precisam acontecer na sequência certa.

O ciclo menstrual: mais do que uma menstruação

O ciclo menstrual dura em média 28 dias, mas ciclos entre 21 e 35 dias são considerados normais pela Organização Mundial da Saúde. Ele se divide em duas fases principais, separadas pela ovulação.

A fase folicular começa no primeiro dia da menstruação e vai até a ovulação. Nesse período, o hormônio FSH (hormônio folículo-estimulante) recruta vários folículos no ovário, mas normalmente só um se torna dominante e amadurece. Esse folículo produz estradiol, que vai espessando o endométrio, o revestimento interno do útero, para receber um possível embrião.

A ovulação acontece quando o pico de LH (hormônio luteinizante) faz o folículo dominante liberar o óvulo maduro. Esse é o evento central de cada ciclo. O óvulo sobrevive por 12 a 24 horas após a liberação. Estudos publicados no Human Reproduction mostram que a ovulação pode variar até 7 dias entre um ciclo e outro na mesma mulher, o que torna a previsão só por calendário pouco confiável.

A fase lútea começa após a ovulação. O folículo vazio se transforma no corpo lúteo, que produz progesterona, essencial para manter o endométrio receptivo à implantação. Se não houver fecundação, o corpo lúteo degenera, a progesterona cai e a menstruação começa novamente.

Reserva ovariana: o relógio biológico é real

Diferentemente dos homens, as mulheres nascem com todas as células precursoras de óvulos que terão na vida. São cerca de 1 a 2 milhões ao nascimento. Na puberdade, restam aproximadamente 300.000 a 400.000. Desses, apenas cerca de 400 serão ovulados ao longo da vida reprodutiva.

Estudos publicados no Fertility and Sterility mostram que a qualidade oocitária começa a declinar de forma mais acentuada a partir dos 35 anos, com queda significativa após os 38. Isso não significa que seja impossível engravidar. Significa que cada ciclo tem uma taxa de sucesso estatisticamente menor e que o tempo de tentativa pode ser mais longo.

O biomédico e nutricionista Murilo Murr destaca: “Reserva ovariana não é destino. Vocês não controlam a quantidade de óvulos restantes, mas podem influenciar bastante a qualidade deles com nutrição, suplementação e estilo de vida adequados. É exatamente isso que trabalhamos no programa.”

 

Como funciona o sistema reprodutivo masculino

A fertilidade masculina depende da produção contínua de espermatozoides de qualidade. Diferentemente do sistema feminino, o masculino é renovável: o ciclo completo de espermatogênese leva aproximadamente 74 dias. Na prática, isso significa que mudanças de hábitos hoje podem impactar a qualidade espermática em 2 a 3 meses.

Espermatogênese: a fábrica que nunca para

Os espermatozoides são produzidos nos testículos, em estruturas chamadas túbulos seminíferos. O processo é regulado principalmente por FSH (que estimula a produção) e testosterona (que mantém o ambiente adequado). A produção diária é impressionante: entre 100 e 200 milhões de espermatozoides por dia em um homem saudável.

Depois de produzidos, os espermatozoides passam pelo epidídimo, onde amadurecem e ganham motilidade. Esse trânsito leva cerca de 12 dias. É ali que eles adquirem a capacidade real de nadar e de fecundar.

O que o espermograma revela

O espermograma é o principal exame de avaliação da fertilidade masculina. Segundo os critérios da OMS (6ª edição, 2021), os parâmetros de referência são:

Parâmetro Valor de referência (OMS, 2021)
Volume do ejaculado ≥ 1,5 mL
Concentração ≥ 16 milhões/mL
Motilidade progressiva ≥ 30%
Motilidade total ≥ 42%
Morfologia normal (critério estrito) ≥ 4%

Esses são valores de referência, não valores ideais. Um espermograma dentro da referência não quer dizer que a qualidade é ótima. Quer dizer que está acima do percentil 5 da população fértil. A diferença entre “normal” e “otimizado” pode ser enorme.

Dados do estudo de Levine et al. (2017), publicado no Human Reproduction Update, mostraram que a concentração média de espermatozoides em homens ocidentais caiu mais de 50% entre 1973 e 2011. Atualizações mais recentes confirmam que a tendência continua. Isso reforça por que a otimização ativa da fertilidade masculina importa tanto quanto a feminina.

 

 

A janela fértil: o timing que define tudo

A janela fértil é o período de cada ciclo em que uma relação sexual pode resultar em gravidez. Na prática, são cerca de 6 dias: os 5 anteriores à ovulação e o dia da ovulação em si.

Por que 6 dias e não apenas 1?

Os espermatozoides podem sobreviver no trato reprodutivo feminino por até 5 dias quando há muco cervical fértil (tipo clara de ovo). O óvulo, por outro lado, sobrevive apenas 12 a 24 horas. Por isso, relações nos dias anteriores à ovulação são tão ou mais eficazes do que no dia exato.

O estudo clássico de Wilcox et al. (1995), publicado no New England Journal of Medicine, demonstrou que a maior probabilidade de concepção ocorre quando a relação acontece 1 a 2 dias antes da ovulação, não no dia da ovulação em si.

Como identificar a janela fértil

Existem vários métodos, e o ideal é combinar mais de um.

Muco cervical: Nos dias férteis, o muco se torna transparente, elástico e com aspecto de clara de ovo crua. É o sinal mais acessível. Pesquisas publicadas no Journal of Obstetrics and Gynaecology Canada mostram que identificar o muco fértil pode aumentar a taxa de concepção em ciclos individuais.

Temperatura basal: A temperatura corporal sobe entre 0,2°C e 0,5°C após a ovulação por causa da progesterona. O problema é que a elevação só confirma que a ovulação já aconteceu. É um marcador retrospectivo: útil para mapear padrões ao longo de vários ciclos, mas não para prever a ovulação no ciclo atual.

Testes de ovulação (LH): Detectam o pico de LH na urina 24 a 36 horas antes da ovulação. São o método mais preciso para prever a ovulação com antecedência e planejar relações nos dias de maior probabilidade.

Dica prática: Em vez de tentar acertar um único dia “perfeito”, mantenham relações regulares a cada 2-3 dias durante o período em que o muco cervical fica mais fértil. Isso cobre a janela sem transformar o processo em algo estressante.

 

Os sabotadores silenciosos da fertilidade do casal

Muitos casais não percebem que hábitos do dia a dia podem estar reduzindo suas chances de conceber. Estes são os sabotadores mais comuns, todos com respaldo científico consistente.

Idade

O fator mais documentado. Para mulheres, a fertilidade atinge o pico no início dos 20 anos, começa a cair de forma perceptível após os 32 e declina mais acentuadamente após os 37. A taxa de aborto espontâneo também sobe com a idade: de aproximadamente 10% aos 25 anos para 20% aos 35 e mais de 40% aos 40, segundo o American College of Obstetricians and Gynecologists.

Para homens, o declínio é mais gradual, mas real. Estudos no Fertility and Sterility mostram que homens acima de 40 apresentam redução na motilidade espermática, aumento na fragmentação de DNA e maior tempo médio para concepção.

Peso corporal

Tanto o excesso quanto o baixo peso afetam a fertilidade. Mulheres com IMC acima de 30 têm risco significativamente maior de anovulação (ciclos sem ovulação), porque a gordura visceral produz estrogênio em excesso e pode desregular o eixo hormonal.

No homem, a obesidade está associada a menor concentração espermática e maior fragmentação de DNA nos espermatozoides, conforme revisão sistemática no Human Reproduction Update.

Estresse crônico

O cortisol cronicamente elevado interfere na pulsatilidade do GnRH, o hormônio que comanda toda a cascata reprodutiva. Estudos no American Journal of Epidemiology mostram que mulheres com marcadores elevados de estresse levam mais tempo para conceber.

Tabagismo

Talvez o sabotador mais destrutivo da fertilidade do casal. Mulheres fumantes chegam à menopausa em média 1 a 4 anos mais cedo. Homens fumantes apresentam redução em todos os parâmetros do espermograma. Meta-análise no Human Reproduction Update mostra que o tabagismo reduz a fecundabilidade (probabilidade de conceber por ciclo) entre 40% e 60%.

Álcool

Mesmo o consumo moderado está associado a menor fecundabilidade. Um estudo dinamarquês no BMJ com mais de 6.000 mulheres encontrou que 14 ou mais doses semanais reduziam a fecundabilidade em 18%. Para homens, o excesso reduz testosterona e compromete a qualidade espermática.

Disruptores endócrinos

Substâncias químicas presentes em plásticos (BPA, ftalatos), cosméticos (parabenos), pesticidas e até recibos de papel térmico. Elas mimetizam hormônios no corpo e interferem no sistema reprodutivo. A Sociedade de Endocrinologia dos EUA reconhece os disruptores endócrinos como ameaça real à saúde reprodutiva do casal, com estudos mostrando impacto na qualidade tanto oocitária quanto espermática.

 

O que ela e ele precisam priorizar de forma diferente

A fertilidade é do casal, mas os caminhos de otimização não são iguais.

Para ela

O foco principal é regularidade do ciclo menstrual, qualidade oocitária e saúde do endométrio. Os fatores com maior impacto: equilíbrio hormonal (tireoide, insulina, estrogênio/progesterona), nutrição rica em antioxidantes e nutrientes específicos como folato, ferro e vitamina D, controle da inflamação e manejo do estresse.

A investigação básica inclui perfil hormonal (FSH, LH, estradiol, progesterona, AMH, TSH), ultrassom transvaginal para contagem de folículos antrais e avaliação da permeabilidade tubária quando indicado.

Para ele

O foco é produção, motilidade e integridade do DNA dos espermatozoides. Os fatores com maior impacto: temperatura testicular (evitar calor excessivo), nutrição rica em zinco, selênio e antioxidantes, sono adequado e atividade física moderada.

A investigação básica é mais simples: espermograma com pelo menos duas amostras (intervalo de 2-4 semanas) e dosagem de testosterona total quando há sinais clínicos de deficiência.

O que ambos precisam fazer

Parar de fumar, reduzir álcool, melhorar alimentação, gerenciar estresse, dormir bem e evitar exposição a disruptores endócrinos. Esses são os fundamentos da fertilidade do casal que os próximos pilares do programa aprofundam.

 

Quando procurar ajuda profissional

Existem situações em que a orientação médica especializada é necessária. Reconhecer isso faz parte de uma abordagem baseada em ciência.

Procurem um especialista em reprodução humana se:

  • Estão tentando há mais de 12 meses (relações regulares, sem contracepção) e a mulher tem menos de 35 anos
  • Estão tentando há mais de 6 meses e a mulher tem 35 anos ou mais
  • Existem irregularidades menstruais significativas (ciclos muito longos, muito curtos ou ausentes)
  • Há histórico de duas ou mais perdas gestacionais
  • O espermograma mostra alterações persistentes em mais de uma amostra
  • Existem condições como endometriose, SOP, varicocele ou histórico de ISTs
  • Já existe diagnóstico prévio de infertilidade ou subfertilidade

O Método Casal Mais Fértil é um programa de otimização pré-concepcional. Ele prepara o terreno e corrige o que pode ser melhorado no estilo de vida, nutrição e suplementação. Não substitui investigação médica quando indicada, nem tratamentos de reprodução assistida.

Aliás, muitos casais que estão em processo de reprodução assistida se beneficiam da otimização, porque um corpo mais bem preparado responde melhor a qualquer tratamento.

 

Perguntas Frequentes

Quanto tempo leva em média para engravidar naturalmente?

Cerca de 84% dos casais concebem dentro de 12 meses de relações regulares sem proteção. Após 24 meses, esse número sobe para aproximadamente 92%. A taxa de concepção por ciclo varia entre 15% e 30% em casais jovens e saudáveis, dependendo da idade e de fatores individuais. Se vocês estão tentando há menos de um ano, pode ser cedo para se preocupar, mas nunca é cedo para otimizar.

O espermograma do meu parceiro veio normal. Isso significa que está tudo bem?

Não necessariamente. Os valores de referência da OMS representam o percentil 5 da população fértil. Ou seja, 95% dos homens férteis estão acima desses números. Um resultado “dentro da referência” pode estar longe do ideal. Além disso, o espermograma padrão não avalia a fragmentação de DNA espermático, um fator importante que pode estar alterado mesmo com parâmetros convencionais normais.

A idade do homem também afeta a fertilidade?

Sim. O declínio é mais gradual que nas mulheres, mas depois dos 40 anos há aumento documentado na fragmentação de DNA dos espermatozoides, redução na motilidade e maior tempo para concepção. Estudos também associam idade paterna avançada a maior risco de certas condições genéticas. A otimização do estilo de vida e da nutrição é especialmente importante para homens acima dos 35.

Posso engravidar fora da janela fértil?

Na prática, não. A concepção só ocorre quando há óvulo viável e espermatozoides no trato reprodutivo ao mesmo tempo. Como o óvulo sobrevive 12 a 24 horas e os espermatozoides até 5 dias, a janela efetiva é de aproximadamente 6 dias por ciclo.

Ter relações todos os dias aumenta as chances?

Não obrigatoriamente. Relações a cada 1-2 dias durante a janela fértil são tão eficazes quanto relações diárias. Para homens com espermograma normal, a frequência diária não prejudica a qualidade, mas a pressão para “acertar o dia” pode gerar estresse, que por si só atrapalha. O melhor é manter relações regulares, a cada 2-3 dias, durante o período de muco fértil.

Um Plano Sob Medida Para Vocês

O Programa Casal + Fértil foi criado para casais que não querem mais tentar engravidar “no escuro”.

Além de um sistema completo baseado nos 4 Pilares da Fertilidade, o casal tem direito a uma consulta particular comigo, onde analiso a história, os exames e a rotina de vocês.

Depois da consultoria, eu entrego um Guia de Ação Personalizado para a situação de vocês, com um plano organizado para os próximos 90 dias — período que impacta diretamente a qualidade dos óvulos e dos espermatozoides.

O foco é melhorar a qualidade reprodutiva de ambos e aumentar as chances de uma gravidez natural.

Quero conhecer o Programa

 


Próximos passos: Este guia cobriu os fundamentos: como a fertilidade funciona e o que a sabota. Nos próximos pilares, vocês vão aprender como otimizar cada fator: estilo de vida e rotina, alimentação estratégica e suplementação baseada em evidências.

Sobre o autor: Murilo Murr é biomédico (CRBM 17665) e nutricionista (CRN3 51723), especializado em fertilidade natural baseada em evidências científicas. Criador do Método Casal Mais Fértil, orienta casais na otimização pré-concepcional unindo conhecimento clínico e nutricional.

Disclaimer: Este conteúdo é informativo e educacional. Não substitui avaliação e acompanhamento médico individualizado. Procure sempre um profissional de saúde para orientações específicas ao seu caso.

Última atualização: Março de 2026

Referências:

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