Cerca de 40 a 50% dos casos de dificuldade para engravidar envolvem fatores masculinos, segundo a Sociedade Americana de Medicina Reprodutiva (ASRM). Ainda assim, o espermograma costuma ser o último exame pedido, quando deveria ser o primeiro. Esse exame simples e acessível revela informações decisivas sobre a contagem, a movimentação e a forma dos espermatozoides, ajudando o casal a entender seu ponto de partida real.

 

Por que a fertilidade masculina importa tanto quanto a feminina

Existe um mito persistente de que a dificuldade para engravidar é, na maioria das vezes, um problema feminino. Os números dizem o contrário. Em aproximadamente um terço dos casos a causa é exclusivamente masculina, em outro terço é feminina, e no terço restante os dois parceiros contribuem ou a causa permanece inexplicada.

O problema é que muitos casais passam meses ou até anos focando apenas na saúde reprodutiva da mulher enquanto o fator masculino segue sem investigação. Um espermograma custa pouco, não é invasivo e dá respostas em poucos dias. De acordo com o biomédico e nutricionista Murilo Murr, “quando o casal chega para a consultoria, a primeira pergunta que faço é se o espermograma já foi feito. Em muitos casos, ele revela alterações que, se identificadas cedo, podem ser corrigidas com mudanças no estilo de vida.”

 

O que o espermograma avalia

O espermograma analisa uma amostra de sêmen coletada após 2 a 5 dias de abstinência ejaculatória. Os parâmetros são comparados com os valores de referência estabelecidos pela OMS em 2021 (6ª edição do Manual de Análise Seminal). Os principais são:

Volume do ejaculado (referência: ≥ 1,5 ml). Volumes muito baixos podem indicar obstrução nos ductos ejaculatórios ou ejaculação retrógrada. Volumes altos não são necessariamente melhores, pois podem diluir a concentração de espermatozoides.

Concentração espermática (referência: ≥ 16 milhões por ml). Esse número indica quantos espermatozoides existem por mililitro de sêmen. Abaixo de 16 milhões, a condição é chamada oligozoospermia. Quando não há espermatozoides detectáveis, chama-se azoospermia.

Motilidade (referência: ≥ 30% progressiva, ≥ 42% total). De nada adianta ter milhões de espermatozoides se eles não se movem na direção certa. A motilidade progressiva mede quantos nadam efetivamente para frente. Motilidade reduzida é chamada astenozoospermia.

Morfologia (referência: ≥ 4% formas normais pelo critério estrito de Kruger). Esse parâmetro avalia a forma do espermatozoide: cabeça, peça intermediária e cauda. Apenas espermatozoides com forma normal conseguem penetrar o óvulo de forma eficiente. Pode parecer alarmante que o limite de referência seja “apenas” 4%, mas o critério de Kruger é rigoroso, e valores acima de 4% são considerados adequados.

Outros parâmetros: O espermograma também avalia pH, viscosidade, tempo de liquefação e presença de leucócitos. Leucócitos elevados (acima de 1 milhão/ml) podem indicar infecção ou inflamação no trato reprodutivo.

 

Como interpretar resultados fora da referência

Um resultado abaixo dos valores de referência em um único exame não é sentença. A qualidade seminal varia naturalmente de uma amostra para outra. Febre recente, estresse intenso, noites mal dormidas, uso de álcool ou até uma abstinência muito longa antes da coleta podem alterar os resultados.

Por isso, a recomendação é repetir o espermograma após 2 a 3 meses quando os resultados estão alterados. Se a alteração persistir, aí sim vale aprofundar a investigação com um urologista ou andrologista.

Outro ponto que gera confusão: os valores da OMS são limites inferiores de referência, não valores ideais. Um homem com 16 milhões/ml e 30% de motilidade progressiva está no limite, não no ótimo. Quanto mais acima da referência, melhor a probabilidade de concepção natural.

 

O que prejudica a qualidade espermática

A espermatogênese (o processo de produção dos espermatozoides) leva cerca de 74 dias. Isso significa que tudo o que o homem fez nos últimos 2 a 3 meses se reflete no espermograma de hoje. Os fatores com maior impacto incluem:

Temperatura escrotal elevada. Os testículos ficam fora do corpo por uma razão: precisam estar 2 a 4°C abaixo da temperatura corporal para funcionar bem. Banhos quentes frequentes, saunas, notebook sobre o colo por períodos prolongados e roupas muito justas podem elevar essa temperatura. Um estudo na revista Human Reproduction mostrou que homens expostos a calor escrotal frequente apresentavam redução significativa na concentração e motilidade espermáticas.

Tabagismo. Fumar reduz a concentração espermática em 13 a 17% e aumenta a fragmentação do DNA dos espermatozoides, segundo meta-análise publicada na European Urology. Os efeitos são dose-dependentes: quanto mais cigarros, maior o impacto.

Álcool em excesso. Consumo pesado (mais de 14 doses por semana) está associado a queda na testosterona e deterioração dos parâmetros seminais. Consumo moderado parece ter impacto menor, mas durante o período de tentativa de concepção, reduzir é a escolha mais prudente.

Obesidade. O excesso de tecido adiposo aumenta a conversão de testosterona em estrogênio pela enzima aromatase, alterando o equilíbrio hormonal. Homens com IMC acima de 30 têm, em média, menor concentração espermática e maior porcentagem de formas anormais.

Estresse crônico. Cortisol elevado de forma persistente interfere no eixo hipotálamo-hipófise-gonadal, reduzindo a produção de testosterona e FSH. O efeito não aparece de uma semana para outra, mas meses sob estresse intenso se refletem no espermograma.

 

O que o homem pode fazer na prática

Como a espermatogênese leva 74 dias, mudanças feitas hoje começam a aparecer no espermograma daqui a 2 a 3 meses. Isso é uma boa notícia: significa que há tempo para agir antes de a concepção ser planejada.

1. Façam o espermograma cedo. Não esperem meses de tentativas frustradas. Se o casal está planejando engravidar nos próximos 3 a 6 meses, o espermograma pode ser feito agora, como linha de base. Se vier alterado, sobra tempo para corrigir.

2. Reduzam a exposição ao calor. Evitem notebook sobre o colo sem suporte, banhos muito quentes prolongados e roupas íntimas apertadas. Cuecas boxer são preferíveis a modelos justos durante o período de preparação.

3. Priorizem alimentos ricos em antioxidantes e zinco. Castanhas, sementes de abóbora, peixes gordurosos, frutas vermelhas e vegetais verde-escuros são aliados da saúde espermática. A alimentação é um dos quatro pilares que abordamos no guia completo de fertilidade para casais.

4. Cortem ou reduzam tabaco e álcool. O tabaco é o fator mais consistentemente associado à piora dos parâmetros seminais. Se parar completamente não for viável de imediato, a redução já ajuda.

5. Mantenham relações regulares durante a janela fértil. A cada 1 a 2 dias é o intervalo que a ASRM recomenda. Abstinência prolongada acumula espermatozoides, mas aumenta a fragmentação do DNA e reduz a motilidade.

 

Fertilidade Masculina e Espermograma – Perguntas Frequentes

Quais são os valores normais do espermograma?

Pelos critérios da OMS (2021): volume ≥ 1,5 ml, concentração ≥ 16 milhões/ml, motilidade progressiva ≥ 30%, motilidade total ≥ 42% e morfologia normal ≥ 4% pelo critério estrito de Kruger. Valores abaixo não significam infertilidade, mas indicam que a probabilidade de concepção natural pode estar reduzida.

Quanto tempo leva para o esperma se renovar?

A espermatogênese leva aproximadamente 74 dias. Mudanças no estilo de vida, alimentação ou suplementação demoram 2 a 3 meses para aparecer no espermograma. Por isso, a preparação para a concepção deve começar com antecedência.

Um espermograma ruim pode melhorar?

Sim. Em muitos casos, parâmetros alterados melhoram com ajustes no estilo de vida: redução de álcool e tabaco, melhora da alimentação, controle do peso, redução do estresse e da exposição ao calor escrotal. Estudos mostram que dietas ricas em antioxidantes, zinco e ômega-3 estão associadas a melhoras significativas em motilidade e morfologia após 2 a 3 meses.

Com que frequência o homem deve ejacular para ter melhor qualidade de esperma?

A ASRM recomenda relações a cada 1 a 2 dias durante a janela fértil. Abstinência prolongada (mais de 5 dias) pode aumentar o volume, mas reduz a motilidade e aumenta a fragmentação do DNA espermático. Intervalos de 1 a 3 dias são o ponto de equilíbrio.

O calor do notebook ou celular no bolso prejudica a fertilidade masculina?

A evidência aponta que fontes de calor prolongado na região escrotal podem prejudicar, sim. Os testículos precisam estar 2 a 4°C abaixo da temperatura corporal. O uso frequente de notebook sobre o colo está associado a aumento da temperatura escrotal e piora dos parâmetros seminais. Para o celular no bolso, a evidência é menos conclusiva, mas a recomendação prudente é evitar exposição prolongada.

 

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Leitura recomendada: Este artigo faz parte do nosso conteúdo sobre fertilidade do casal. Para ver como a fertilidade masculina se conecta ao quadro geral, leia o guia completo de fertilidade para casais. Para entender o lado feminino, veja também nosso artigo sobre ciclo menstrual e ovulação.

Sobre o autor: Murilo Murr é Biomédico (CRBM 17665) e Nutricionista (CRN3 51723) especializado em fertilidade natural e nutrição reprodutiva. Criador do Método Casal Mais Fértil, ajuda casais a prepararem o corpo para a concepção com base em evidências científicas. Saiba mais sobre o Murilo.

Disclaimer: Este conteúdo tem finalidade educativa e informativa. Não substitui consulta, diagnóstico ou tratamento médico. Cada caso é individual. Procure sempre orientação de profissionais de saúde qualificados.

Referências:

  1. World Health Organization. WHO laboratory manual for the examination and processing of human semen. 6th ed. Geneva: WHO; 2021. who.int
  2. Practice Committee of ASRM. Diagnostic evaluation of the infertile male: a committee opinion. Fertility and Sterility. 2015;103(3):e18-e25. doi:10.1016/j.fertnstert.2014.12.103
  3. Sharma R, Harlev A, Agarwal A, Esteves SC. Cigarette smoking and semen quality: a new meta-analysis. European Urology. 2016;70(4):635-645. doi:10.1016/j.eururo.2016.04.010
  4. Sheynkin Y, Jung M, Yoo P, et al. Increase in scrotal temperature in laptop computer users. Human Reproduction. 2005;20(2):452-455. doi:10.1093/humrep/deh616
  5. Salas-Huetos A, Bulló M, Salas-Salvadó J. Dietary patterns, foods and nutrients in male fertility parameters and fecundability: a systematic review. Human Reproduction Update. 2017;23(4):371-389. doi:10.1093/humupd/dmx006