Fertilidade é um tema cercado de conselhos não solicitados, crenças passadas de geração em geração e informações de qualidade duvidosa que circulam nas redes sociais. Alguns desses mitos sobre engravidar são inofensivos. Outros fazem casais perderem ciclos de tentativa, adiar a busca por ajuda ou tomar decisões sem base real. O biomédico e nutricionista Murilo Murr reúne os 12 mitos mais comuns e o que a ciência diz sobre cada um.

Mito 1: “Deitar com as pernas para cima depois da relação aumenta as chances”

A lógica parece fazer sentido: se a gravidade ajuda os espermatozoides a chegar ao útero, ficar de cabeça para baixo deveria ajudar. O problema é que os espermatozoides chegam ao colo do útero em minutos, antes de qualquer posição fazer diferença. Estudos que avaliaram o repouso pós-coital não encontraram benefício consistente.

O fato: a posição após a relação não influencia as chances de concepção. O que importa é o timing em relação à ovulação.

Mito 2: “A pílula causa infertilidade”

Esse mito causa ansiedade desnecessária em muitas mulheres e as faz protelar o uso de anticoncepcional ou buscar métodos menos eficazes por medo. A evidência científica é consistente: as taxas de gravidez em 12 meses são equivalentes entre ex-usuárias de pílula e mulheres que nunca usaram contraceptivo hormonal.

O fato: a pílula suprime temporariamente a ovulação. Ao parar, o ciclo retorna. Pode haver alguma irregularidade nos primeiros meses, o que é normal e transitório.

Mito 3: “Quanto mais relações, maiores as chances”

Faz sentido intuitivo, mas a biologia não funciona exatamente assim. A concepção só é possível na janela fértil, que tem cerca de seis dias por ciclo. Relações fora desse período não contribuem para a concepção. Dentro da janela, ter relações todos os dias pode até reduzir levemente a concentração espermática em alguns homens.

O fato: relações a cada 1 a 2 dias durante a janela fértil é o padrão com melhor evidência. Fora dela, a frequência não tem impacto nas chances daquele ciclo.

Mito 4: “O homem não precisa se preocupar até precisar de tratamento”

O fator masculino está envolvido em 40 a 50% dos casos de dificuldade para engravidar. Alimentação, suplementação, calor escrotal, álcool, tabaco e estresse afetam diretamente a qualidade espermática. E as mudanças levam 74 dias para se refletir nos espermatozoides.

O fato: a preparação pré-concepcional é dos dois. Ele precisa se envolver desde o início, não só quando algo der errado.

Mito 5: “O estresse é a principal causa de infertilidade”

O estresse crônico interfere no eixo hormonal reprodutivo, pode atrasar a ovulação e comprometer a qualidade espermática. Mas não é a principal causa de infertilidade. Esse mito é perigoso porque faz casais achar que o problema é psicológico quando há causas físicas tratáveis que precisam de investigação.

O fato: o estresse é um fator que pode influenciar negativamente a fertilidade, mas raramente é a causa isolada. Não substitui a investigação clínica.

 

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Mito 6: “A ovulação sempre acontece no 14º dia”

Um estudo clássico mostrou que apenas 30% das mulheres ovulam entre os dias 10 e 17 do ciclo. Os outros 70% ovulam fora dessa janela. A fase folicular, que vai da menstruação até a ovulação, varia de ciclo para ciclo na mesma mulher.

O fato: o 14º dia é uma estimativa para ciclos de 28 dias. Monitorar a ovulação com testinho de LH ou temperatura basal é mais confiável do que contar dias no calendário.

Mito 7: “Se menstruou, ovulou”

Nem toda menstruação indica que houve ovulação. Ciclos anovulatórios, em que ocorre sangramento sem ovulação prévia, são mais comuns do que se imagina, especialmente em mulheres com SOP ou em fases de desequilíbrio hormonal. A menstruação presente não é garantia de fertilidade.

O fato: menstruação e ovulação são eventos diferentes. Para confirmar que a ovulação está acontecendo, o aumento de temperatura basal após o período fértil é o sinal mais confiável de forma doméstica.

Mito 8: “Depois dos 35 anos é muito difícil engravidar”

A fertilidade diminui progressivamente com a idade, e isso é real. Mas a percepção de que depois dos 35 “é tarde” é exagerada. Estudos mostram que mulheres entre 35 e 40 anos com fertilidade preservada têm probabilidade de concepção razoável por ciclo. Depois dos 40, as chances caem de forma mais acentuada, mas ainda não chegam a zero.

O fato: a idade importa, mas não é o único fator. Reserva ovariana, saúde geral, ciclo preservado e ausência de condições como endometriose influenciam tanto quanto a idade isolada.

Mito 9: “Suplemento de ácido fólico pode esperar até a gravidez ser confirmada”

O tubo neural do bebê começa a se formar nos primeiros 28 dias após a fecundação, antes de a maioria das mulheres saber que está grávida. O ácido fólico precisa estar presente no organismo nesse momento. Iniciar após o teste positivo chega tarde para a janela mais crítica de proteção.

O fato: o folato deve ser iniciado pelo menos 1 a 3 meses antes de começar a tentar engravidar.

Mito 10: “A Tabela Chinesa prevê o sexo do bebê com precisão”

A Tabela Chinesa é uma tradição cultural com mais de sete séculos. Quando testada cientificamente em populações reais, a taxa de acerto é de aproximadamente 50%, o mesmo que qualquer previsão aleatória de resultado binário.

O fato: o sexo do bebê é determinado pelo espermatozoide no momento da fecundação. A tabela não tem mecanismo biológico conhecido que influencie esse processo.

Mito 11: “Se eu tiver relação no dia certo, vou engravidar naquele mês”

Mesmo com timing perfeito, a chance de concepção por ciclo em casais com fertilidade normal é de 20 a 25%. Isso significa que, mesmo fazendo tudo certo, três em quatro ciclos não resultam em gravidez por razões puramente estatísticas.

O fato: fertilidade não é uma máquina de resultados garantidos. A taxa cumulativa ao longo de 12 meses é de 85% para casais com fertilidade preservada. Persistência dentro de um processo bem conduzido é o que funciona.

Mito 12: “Adotar relaxa o organismo e aumenta as chances de engravidar”

Esse é talvez o mito mais cruel, porque diminui a experiência real de casais que adotaram e engravidaram depois, atribuindo a gravidez ao “relaxamento” em vez de às causas biológicas. Estudos que avaliaram a relação entre adoção e concepção subsequente não encontraram que a adoção aumenta as taxas de gravidez.

O fato: se após adoção uma gravidez ocorreu, foi por razões biológicas: resolução de uma causa tratada, variação natural da fertilidade, ou simplesmente que o tempo favoreceu. A adoção é uma forma bonita de constituir família e não precisa de nenhuma justificativa reprodutiva.

Deixe os Mitos de Lado e Foque no Que Funciona

Se você percebeu que muita coisa que ouviu sobre engravidar não se sustenta na prática — e quer focar no que realmente faz diferença — o Programa Casal + Fértil foi desenvolvido para trazer clareza e direção nesse processo.

Além de um método estruturado nos pilares da fertilidade, vocês passam por uma avaliação individual comigo, onde analiso histórico, exames e rotina — com foco em identificar crenças equivocadas e ajustar o que realmente impacta as chances de gravidez.

A partir disso, vocês recebem um plano de ação personalizado para os próximos 90 dias, período essencial para melhorar a qualidade dos óvulos e dos espermatozoides e alinhar as tentativas de forma mais eficiente.

A proposta é sair do que não funciona e aplicar uma estratégia mais consistente, aumentando as chances de uma gravidez natural de forma mais direcionada.

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Sobre o autor

Murilo Murr é biomédico (CRBM 17665) e nutricionista (CRN3 51723), especializado em fertilidade natural e nutrição reprodutiva. É criador do Método Casal Mais Fértil, programa de preparação pré-concepcional baseado em evidências científicas.

Este conteúdo tem caráter exclusivamente educativo e informativo. Não substitui consulta médica, avaliação ginecológica ou acompanhamento com especialista em reprodução humana. Toda decisão sobre planejamento familiar deve ser tomada em conjunto com profissionais de saúde habilitados.


Referências científicas

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  3. Bhattacharya S, Ghosh D. Ancient Chinese method of sex prediction: revisited. Paediatr Perinat Epidemiol. 2010;24(3):302. https://doi.org/10.1111/j.1365-3016.2010.01104.x
  4. Dunson DB, Colombo B, Baird DD. Changes with age in the level and duration of fertility in the menstrual cycle. Hum Reprod. 2002;17(5):1399–1403. https://doi.org/10.1093/humrep/17.5.1399
  5. Gnoth C, Frank-Herrmann P, Freundl G, et al. Time to pregnancy: results of the German prospective study. Hum Reprod. 2003;18(9):1959–1966. https://doi.org/10.1093/humrep/deg366