A maioria dos casais que demora tentando engravidar não tem um problema grave. Normalmente eles têm um ou mais erros facilmente corrigíveis. Depois de acompanhar muitos casais tentantes ao longo da minha carreira como biomédico e nutricionista especializado em fertilidade, identifico os mesmos padrões se repetindo. Alguns são sobre timing. Outros, sobre o lado masculino que ninguém lembra. Outros ainda, sobre o que se come, o que se toma ou o que se deixa de fazer. Cada um deles, corrigido a tempo, pode mudar o resultado do ciclo seguinte.
Erro 1: Achar que o dia 14 é o dia certo para todo mundo
O “14º dia do ciclo” virou uma espécie de regra universal que não é. Essa estimativa vale para quem tem ciclos de exatamente 28 dias, e não é a realidade da maioria. Um estudo clássico de Wilcox et al. publicado no New England Journal of Medicine mostrou que apenas 30% das mulheres ovulam entre os dias 10 e 17. Os outros 70% ovulam fora dessa janela.
Casais que concentram todas as relações em torno do dia 14 sem monitorar a ovulação real podem passar meses inteiros tentando em dias completamente errados do ciclo.
O que fazer: usar testinhos de LH para identificar o pico hormonal real. Não é caro, não é complicado e entrega informação do ciclo atual, não de uma média estatística.
Erro 2: Ter relações apenas no dia exato da ovulação
O oposto também atrapalha. Alguns casais identificam a ovulação com precisão mas esperam o dia certo para ter relações, perdendo a janela pré-ovulatória, que é a mais fértil do ciclo.
O óvulo tem vida útil de 12 a 24 horas. Mas os espermatozoides sobrevivem até cinco dias no trato reprodutor feminino. Isso significa que ter relações dois a três dias antes da ovulação deixa espermatozoides posicionados e aguardando. Concentrar tudo em um único dia é arriscado: qualquer erro de timing e o ciclo passa.
O que fazer: ter relações a cada 1 a 2 dias durante toda a semana em torno do pico de LH, não apenas no dia exato.
Erro 3: Ignorar o lado masculino
Em cerca de 40 a 50% dos casos de dificuldade para engravidar, o fator masculino está envolvido. Mesmo assim, muitos casais passam meses, às vezes anos, investigando e tratando exclusivamente o lado feminino sem fazer um espermograma.
Um espermatozoide saudável é tão necessário quanto um óvulo saudável. A avaliação dos dois deveria ser simultânea desde o início.
O que fazer: solicitar um espermograma básico logo que o casal decide investigar. É simples, barato e pode revelar o problema em uma única consulta.

Erro 4: Não começar o folato antes de tentar engravidar
O ácido fólico ou metilfolato precisa estar presente no organismo antes da concepção, não depois do teste positivo. Os primeiros dias após a fecundação são críticos para a formação do tubo neural do bebê, e esse processo começa antes mesmo de a mulher saber que está grávida.
A recomendação é iniciar a suplementação pelo menos 1 a 3 meses antes de começar a tentar. Muitos casais só começa quando confirmam a gravidez. A esse ponto, parte da janela de proteção já passou.
O que fazer: iniciar ácido fólico ou metilfolato (para quem tem variante MTHFR) assim que decidir tentar engravidar.
Erro 5: Usar lubrificante comum tentando engravidar
A maioria dos lubrificantes à base de água ou silicone interfere com a motilidade espermática. Mesmo pequenas quantidades podem dificultar o deslocamento dos espermatozoides em direção ao óvulo.
Esse é um erro silencioso: o casal não percebe que o lubrificante pode estar comprometendo as chances a cada ciclo.
O que fazer: usar lubrificantes específicos para fertilidade, formulados para não prejudicar os espermatozoides. Algumas marcas têm esse selo explícito. Na dúvida, evitar lubrificante durante o período fértil.
Erro 6: Deixar o estresse de lado da equação
O cortisol cronicamente elevado interfere no eixo hipotálamo-hipófise-ovário, podendo atrasar ou suprimir a ovulação. No homem, o estresse crônico está associado a redução da testosterona e piora nos parâmetros espermáticos.
Não é que o estresse cause infertilidade diretamente. É que ele bagunça o ambiente hormonal dos dois de formas que afetam o ciclo dela e a qualidade dos espermatozoides dele.
O que fazer: incluir estratégias reais de manejo do estresse na rotina. Sono regular, exercício moderado, práticas de relaxamento. Não como complemento opcional, mas como parte da preparação.
Erro 7: Esperar 12 meses para buscar avaliação quando existem sinais de alerta
A recomendação de aguardar 12 meses antes de buscar avaliação médica é válida para casais jovens sem histórico de condições que afetam a fertilidade. Mas muitos casais com ciclos irregulares, dor pélvica crônica, histórico de endometriose ou espermograma alterado esperam esse tempo todo antes de investigar.
Quando há sinais de alerta, cada ciclo que passa sem investigação pode ser tempo perdido.
O que fazer: buscar avaliação antes dos 12 meses se houver ciclos muito irregulares ou ausentes, dor pélvica, histórico de cirurgia pélvica, endometriose conhecida, abortos de repetição, ou se ele nunca fez um espermograma.
Erro 8: Achar que o anticoncepcional não afeta o retorno da fertilidade
Para a pílula combinada, o retorno costuma ser rápido. Para a injeção trimestral de depósito, pode levar de 6 a 18 meses. Casais que passam da injeção trimestral diretamente para a tentativa sem entender esse intervalo ficam confusos e ansiosos quando o ciclo demora a voltar.
O que fazer: entender o método contraceptivo usado e o que esperar do retorno da fertilidade ao parar. Para quem usava injeção trimestral, planejar com antecedência e usar o período de espera para preparação.
Erro 9: Achar que tentar engravidar é responsabilidade exclusivamente feminina
Esse erro vai além de ignorar o espermograma. É a postura geral de que a tentativa de engravidar é “coisa dela”: ela toma suplemento, ela monitora o ciclo, ela vai ao médico, ela muda a alimentação. Ele acompanha.
A qualidade espermática é influenciada diretamente por alimentação, suplementação, sono, exercício, calor escrotal e exposição a toxinas. Mudanças feitas por ele em 90 dias refletem nos espermatozoides que estarão presentes nos ciclos de tentativa seguintes.
O que fazer: tratar a preparação como projeto do casal. Ele suplementa, dorme bem, revisa a alimentação e cuida da qualidade espermática com a mesma seriedade que ela cuida do ciclo.
Erro 10: Não checar vitamina D e ferritina antes de tentar engravidar
Deficiência de vitamina D está associada a ciclos irregulares, piora de condições como SOP e endometriose, e resultados inferiores em reprodução assistida. Ferritina baixa, mesmo sem anemia clínica, compromete a qualidade dos óvulos e o desenvolvimento folicular. São os dois exames mais frequentemente alterados em mulheres que chegam à consulta pré-concepcional e que ninguém checou antes.
O que fazer: solicitar vitamina D (25-OH vitamina D) e ferritina no sangue antes de começar a tentar. Se alterados, corrigir antes das tentativas, não durante.
Um Plano (Personalizado) Para Corrigir Todos os Erros

Se vocês perceberam que alguns hábitos ou decisões podem estar prejudicando as tentativas — e querem ajustar isso com mais precisão — o Programa Casal + Fértil foi desenvolvido para trazer clareza e direção nesse processo.
Além de um método estruturado nos pilares da fertilidade, vocês passam por uma avaliação individual comigo, onde analiso histórico, exames e rotina — com foco em identificar erros comuns e corrigir o que realmente impacta as chances de gravidez.
A partir disso, vocês recebem um plano de ação personalizado para os próximos 90 dias, período essencial para melhorar a qualidade dos óvulos e dos espermatozoides e alinhar as tentativas de forma mais eficiente.
A proposta é evitar desperdício de tempo com tentativas no escuro e aplicar uma estratégia mais consistente para aumentar as chances de uma gravidez natural.
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Este conteúdo tem caráter exclusivamente educativo e informativo. Não substitui consulta médica, avaliação ginecológica ou acompanhamento com especialista em reprodução humana. Toda decisão sobre planejamento familiar deve ser tomada em conjunto com profissionais de saúde habilitados.
Referências científicas
- Wilcox AJ, Weinberg CR, Baird DD. Timing of sexual intercourse in relation to ovulation. N Engl J Med. 1995;333(23):1517–1521. https://doi.org/10.1056/NEJM199512073332301
- Irvine DS. Epidemiology and aetiology of male infertility. Hum Reprod. 1998;13(Suppl 1):33–44. https://doi.org/10.1093/humrep/13.suppl_1.33
- Lyngsø J, Ramlau-Hansen CH, Bay B, et al. Association between coffee or caffeine consumption and fecundity and fertility. Clin Epidemiol. 2017;9:699–719. https://doi.org/10.2147/CLEP.S146496
- Agarwal A, Virk G, Ong C, du Plessis SS. Effect of oxidative stress on male reproduction. World J Mens Health. 2014;32(1):1–17. https://doi.org/10.5534/wjmh.2014.32.1.1
- Gaskins AJ, Chavarro JE. Diet and fertility: a review. Am J Obstet Gynecol. 2018;218(4):379–389. https://doi.org/10.1016/j.ajog.2017.08.010
