O ácido fólico (vitamina B9) é o suplemento mais recomendado no planejamento de uma gravidez, e por um bom motivo: ele reduz em até 70% o risco de defeitos do tubo neural no bebê. Mas nem toda forma de folato funciona igual para todo mundo. Quem tem variantes no gene MTHFR pode se beneficiar do metilfolato, a forma já ativa da vitamina. A suplementação deve começar pelo menos 2 a 3 meses antes da concepção.
Por que o folato é tão importante para quem quer engravidar
O folato é essencial para a divisão celular e a síntese de DNA. No contexto da fertilidade, isso importa em dois momentos críticos: na formação dos gametas (óvulos e espermatozoides) e nas primeiras semanas de desenvolvimento embrionário.
O tubo neural do bebê se fecha entre o 21º e o 28º dia após a concepção. Nessa fase, a maioria das mulheres ainda não sabe que está grávida. Se os níveis de folato estiverem baixos nesse período, o risco de defeitos como espinha bífida e anencefalia aumenta consideravelmente. Por isso, organizações como a OMS e o ACOG recomendam iniciar a suplementação antes de tentar engravidar, não quando o teste dá positivo.
Um estudo clássico publicado no The Lancet demonstrou que a suplementação periconcepcional com ácido fólico reduziu a recorrência de defeitos do tubo neural em 72%. Essa evidência é tão robusta que vários países, incluindo o Brasil, adotaram a fortificação obrigatória de farinhas de trigo e milho com ácido fólico.
Mas o papel do folato vai além da prevenção de defeitos congênitos. Ele participa do ciclo da metilação, um processo bioquímico envolvido na regulação da expressão gênica, no metabolismo da homocisteína e na maturação dos óvulos. Níveis elevados de homocisteína, que ocorrem quando o folato está baixo, estão associados a piores desfechos em ciclos de fertilização in vitro, segundo uma revisão publicada no Human Reproduction Update.
Ácido fólico vs. metilfolato: entendendo a diferença
O termo “folato” se refere à família da vitamina B9. Dentro dela, existem formas diferentes:
O ácido fólico é a forma sintética, presente na maioria dos suplementos e nos alimentos fortificados. Ele não é biologicamente ativo. Para funcionar, precisa ser convertido pelo organismo em uma série de etapas até chegar à forma ativa: o 5-metiltetrahidrofolato, mais conhecido como metilfolato ou 5-MTHF.
Essa conversão depende de uma enzima chamada MTHFR (metilenotetrahidrofolato redutase). E aqui entra o ponto: estima-se que 40 a 60% da população carregue pelo menos uma variante genética que reduz a atividade dessa enzima. As variantes mais estudadas são a C677T e a A1298C. Quem tem duas cópias da variante C677T (homozigoto) pode ter a atividade enzimática reduzida em até 70%.
Na prática, isso significa que essas pessoas convertem ácido fólico com menos eficiência. O suplemento está sendo tomado, mas o corpo não consegue aproveitá-lo plenamente.
O metilfolato (5-MTHF), por outro lado, é a forma que o organismo realmente usa. Ele não depende da enzima MTHFR para funcionar, o que o torna uma alternativa mais direta, especialmente para quem tem essas variantes genéticas.
Como explica o biomédico e nutricionista Murilo Murr: “A escolha entre ácido fólico e metilfolato não é só uma questão de marca ou preço. Para quem tem variantes no MTHFR, pode ser a diferença entre suplementar de forma eficiente ou simplesmente acumular uma forma que o corpo não consegue usar direito.”
O folato também importa para ele
Quando se fala em ácido fólico e gestação, o foco quase sempre recai sobre a mulher. Mas a ciência mostra que o folato também tem papel relevante na fertilidade masculina.
O folato participa da síntese e reparo do DNA, processos fundamentais na espermatogênese. Um estudo publicado na revista Fertility and Sterility associou níveis mais altos de folato seminal a menor fragmentação de DNA espermático. Isso é relevante porque a integridade do DNA do espermatozoide influencia a qualidade do embrião e as taxas de implantação.
Outro estudo, publicado no Human Reproduction, sugeriu que a combinação de folato com zinco pode ter efeito positivo sobre a contagem espermática, embora os resultados variem entre as pesquisas e a suplementação deva ser individualizada.
O ponto importante: a preparação para a concepção não é responsabilidade só dela. Se o casal está se preparando com suplementação, faz sentido que ambos avaliem seus níveis e, se necessário, suplementem com orientação profissional.
O que fazer na prática
O primeiro passo é entender que a suplementação com folato é uma das poucas intervenções com nível de evidência A (o mais alto) para prevenção de defeitos congênitos. A recomendação de iniciar 2 a 3 meses antes de tentar engravidar é consenso entre as principais organizações de saúde do mundo.
Se vocês estão no planejamento pré-concepcional, considerem os seguintes pontos:
Avaliar se há indicação de teste genético para MTHFR. Isso é especialmente relevante se houver histórico de abortos de repetição, defeitos do tubo neural na família ou níveis persistentemente elevados de homocisteína. O exame é simples e pode orientar a escolha da forma mais adequada.
Incluir alimentos ricos em folato na rotina. Vegetais verde-escuros (espinafre, brócolis, couve), leguminosas (feijão, lentilha, grão-de-bico), fígado e ovos são fontes naturais. Mas a alimentação sozinha pode não atingir os níveis recomendados no período pré-concepcional, por isso a suplementação é indicada mesmo com uma dieta equilibrada.
Discutir a forma e a dosagem com o profissional que acompanha vocês. A escolha entre ácido fólico e metilfolato, assim como a dosagem adequada, depende do perfil individual. Não é uma decisão genérica. Na suplementação para fertilidade, contexto muda tudo.
E lembrem: o folato é um dos pilares da preparação, mas funciona melhor quando integrado a uma rotina que apoia a fertilidade como um todo, incluindo alimentação, sono e manejo do estresse.
Perguntas frequentes – Ácido Fólico e Fertilidade
Qual a diferença entre ácido fólico e metilfolato?
O ácido fólico é a forma sintética da vitamina B9 e precisa ser convertido pelo organismo em metilfolato (a forma ativa). Pessoas com variantes no gene MTHFR podem ter dificuldade nessa conversão, o que torna o metilfolato uma alternativa mais direta e eficiente para esses casos.
Quando começar a tomar ácido fólico antes de engravidar?
O ideal é iniciar pelo menos 2 a 3 meses antes de começar a tentar, pois o tubo neural do bebê se forma nas primeiras 4 semanas de gestação, muitas vezes antes da mulher saber que está grávida.
O ácido fólico é importante para a fertilidade masculina?
Sim. Estudos indicam que o folato participa da síntese e reparo do DNA espermático. Níveis adequados estão associados a melhor integridade do material genético dos espermatozoides.
Como saber se tenho a mutação MTHFR?
A variante MTHFR pode ser identificada por um exame genético simples, feito a partir de uma amostra de sangue ou saliva. Converse com seu profissional de saúde sobre a indicação do teste, especialmente se houver histórico familiar de defeitos do tubo neural ou abortos de repetição.
Posso tomar metilfolato no lugar do ácido fólico mesmo sem ter MTHFR?
Sim. O metilfolato é a forma ativa e pode ser utilizado por qualquer pessoa. A escolha entre as formas deve ser discutida com o profissional que acompanha o casal.
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Leitura recomendada: Para entender como a suplementação se encaixa no contexto completo da preparação para a gravidez, leiam nosso guia completo de suplementação para fertilidade. Se querem começar pela base nutricional, vejam o guia dos nutrientes essenciais para fertilidade.
Sobre o autor: Murilo Murr é Biomédico (CRBM 17665) e Nutricionista (CRN3 51723) especializado em fertilidade natural e saúde reprodutiva do casal. Criador do Método Casal Mais Fértil.
Aviso: Este conteúdo é educativo e não substitui orientação médica ou nutricional individualizada. Decisões sobre suplementação devem ser tomadas com acompanhamento profissional, considerando o perfil clínico de cada pessoa.
Última atualização: abril de 2026.
Referências
- MRC Vitamin Study Research Group. Prevention of neural tube defects: results of the Medical Research Council Vitamin Study. The Lancet. 1991;338(8760):131-137. doi:10.1016/0140-6736(91)90133-A
- Gaskins AJ, Chiu YH, Williams PL, et al. Association between serum folate and vitamin B-12 and outcomes of assisted reproductive technologies. American Journal of Clinical Nutrition. 2015;102(4):943-950. doi:10.3945/ajcn.115.112185
- Boxmeer JC, Smit M, Utomo E, et al. Low folate in seminal plasma is associated with increased sperm DNA damage. Fertility and Sterility. 2009;92(2):548-556. doi:10.1016/j.fertnstert.2008.06.010
- Haggarty P, McCallum H, McBain H, et al. Effect of B vitamins and genetics on success of in-vitro fertilisation: prospective cohort study. The Lancet. 2006;367(9521):1513-1519. doi:10.1016/S0140-6736(06)68651-0
- Wilcox AJ, Lie RT, Solvoll K, et al. Folic acid supplements and risk of facial clefts: national population based case-control study. BMJ. 2007;334(7591):464. doi:10.1136/bmj.39079.618287.0B

