A vitamina D vai muito além da saúde dos ossos. Nos últimos anos, a ciência revelou que ela participa da regulação de hormônios reprodutivos, da implantação do embrião e da qualidade espermática. Estudos estimam que 40% a 60% da população brasileira tem níveis insuficientes, mesmo em um país tropical. Para casais tentantes, avaliar e corrigir a vitamina D é uma das intervenções mais simples e com melhor custo-benefício na preparação pré-concepcional.

 

Como a vitamina D influencia a fertilidade

A vitamina D funciona mais como um hormônio do que como uma vitamina clássica. Seus receptores (VDR) estão presentes em praticamente todos os tecidos do corpo, incluindo ovários, útero, placenta e testículos. Isso significa que ela tem papel regulatório em múltiplos processos reprodutivos.

Na fertilidade feminina, a vitamina D influencia pelo menos três frentes. Primeiro, ela participa da regulação do hormônio anti-Mülleriano (AMH), um marcador de reserva ovariana. Estudos mostraram que mulheres com níveis adequados de vitamina D tendem a apresentar valores de AMH mais elevados. Segundo, ela está envolvida na maturação dos folículos ovarianos. Terceiro, receptores de vitamina D estão presentes no endométrio, e sua ativação parece facilitar a receptividade endometrial para a implantação do embrião.

Uma revisão publicada no Human Reproduction Update avaliou múltiplos estudos e encontrou associação entre níveis adequados de vitamina D e maiores taxas de gravidez clínica em ciclos de FIV. Mulheres com vitamina D suficiente (acima de 30 ng/mL) tiveram melhores desfechos reprodutivos em comparação com aquelas deficientes.

Na fertilidade masculina, a presença de receptores de vitamina D nos testículos e nos próprios espermatozoides indica que ela tem papel direto na espermatogênese. Um estudo publicado no Human Reproduction demonstrou que homens com níveis séricos adequados de vitamina D apresentaram melhor motilidade espermática progressiva, o parâmetro que mede a capacidade do espermatozoide de nadar em linha reta até o óvulo.

 

O paradoxo brasileiro: sol não garante a dose ideal

É intuitivo pensar que em um país como o Brasil, com sol o ano todo, a deficiência de vitamina D não seria um problema. Mas a realidade é diferente.

Estudos populacionais mostram que entre 40% e 60% dos brasileiros têm níveis de 25(OH)D abaixo de 30 ng/mL, considerado insuficiente pela maioria das sociedades médicas. Em São Paulo, um estudo encontrou prevalência de deficiência ainda maior em pessoas que trabalham em ambientes fechados.

As razões são várias: a maioria das pessoas passa o dia dentro de escritórios ou casas, o uso (correto) de protetor solar bloqueia parte da síntese cutânea, e a melanina nos tons de pele mais escuros reduz a produção de vitamina D por exposição solar. Além disso, a quantidade de vitamina obtida pela alimentação é pequena. Peixes gordurosos como salmão e sardinha são boas fontes, mas o consumo regular desses alimentos não é a realidade da maioria dos brasileiros.

Por isso, a dosagem sanguínea de 25-hidroxivitamina D é o ponto de partida. É a única forma confiável de saber se os níveis estão adequados.

 

O que a ciência diz: ela, ele e o casal

Para as mulheres, a relação entre vitamina D e resultados reprodutivos é cada vez mais documentada. Além da revisão no Human Reproduction Update já mencionada, um estudo publicado no Journal of Clinical Endocrinology and Metabolism associou a deficiência de vitamina D a maior risco de endometriose e síndrome dos ovários policísticos (SOP), duas condições que afetam diretamente a fertilidade. Em mulheres com SOP, a suplementação de vitamina D mostrou efeitos positivos na regularização dos ciclos menstruais em alguns ensaios clínicos.

Para os homens, além do efeito na motilidade, a vitamina D parece influenciar os níveis de testosterona. Um ensaio clínico randomizado publicado na Hormone and Metabolic Research mostrou que homens que suplementaram com vitamina D3 por um ano tiveram aumento significativo nos níveis de testosterona total em comparação com o grupo placebo.

Como observa o biomédico e nutricionista Murilo Murr: “A vitamina D é um dos casos mais claros de suplemento que deveria ser avaliado por todo casal que está se preparando para engravidar. É barato de dosar, barato de corrigir e tem evidência em múltiplas frentes, tanto para ela quanto para ele.”

 

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O que fazer na prática

Peçam o exame de 25-hidroxivitamina D. Ambos. É um exame de sangue simples que qualquer médico pode solicitar. O resultado vai mostrar se vocês estão na faixa adequada (geralmente entre 30 e 50 ng/mL para saúde reprodutiva) ou se precisam corrigir.

Exposição solar ajuda, mas provavelmente não basta. Exposição de 15 a 20 minutos nos braços e pernas, sem protetor solar, nos horários de sol mais forte (entre 10h e 15h), contribui para a síntese. Mas para muitas pessoas, especialmente quem vive em cidades grandes e trabalha em ambientes fechados, isso não é suficiente para manter níveis ótimos.

A forma D3 é a mais eficiente. Se a suplementação for indicada, a vitamina D3 (colecalciferol) é a forma com melhor capacidade de elevar e manter os níveis séricos. Como é lipossolúvel, a absorção melhora quando tomada junto com uma refeição que contenha gordura. A dosagem de manutenção ou correção varia conforme o nível atual e deve ser definida pelo profissional.

Lembrem: a vitamina D se acumula no corpo. Suplementar sem dosar pode levar a níveis excessivos, que também causam problemas (hipercalcemia, por exemplo). Dosar antes, suplementar com orientação e reavaliar depois de 2 a 3 meses é o caminho seguro.

A vitamina D é um dos suplementos que se integra naturalmente ao protocolo de preparação pré-concepcional. Se vocês querem entender como ela se relaciona com outros nutrientes fundamentais, o guia de nutrientes para fertilidade e o artigo sobre alimentação anti-inflamatória complementam a leitura.

 

Perguntas frequentes

Qual o nível ideal de vitamina D para quem quer engravidar?

A maioria dos especialistas considera que níveis de 25(OH)D entre 30 e 50 ng/mL são adequados para a saúde reprodutiva. Níveis abaixo de 20 ng/mL são classificados como deficiência.

A vitamina D ajuda na fertilidade masculina?

Sim. Receptores de vitamina D estão presentes nos testículos e nos espermatozoides. Estudos associam níveis adequados a melhor motilidade espermática e níveis mais altos de testosterona.

Tomar sol é suficiente para manter a vitamina D?

Depende de diversos fatores. Mesmo no Brasil, entre 40% e 60% da população tem níveis insuficientes. A dosagem sanguínea é a única forma confiável de saber.

Vitamina D3 ou D2: qual é melhor?

A vitamina D3 (colecalciferol) é a forma mais eficiente para elevar e manter os níveis séricos. A D2 pode ser uma opção para veganos, mas é menos potente.

Posso tomar vitamina D sem acompanhamento?

A vitamina D é lipossolúvel e se acumula no corpo. Doses excessivas podem causar toxicidade. Dosar antes de suplementar e acompanhar com exames periódicos é o caminho seguro.

 

Um Programa Sob Medida Para o Casal

 

Se você quer entender como a vitamina D influencia a fertilidade — e se seus níveis estão adequados — o Programa Casal + Fértil foi desenvolvido para trazer clareza e direção nesse processo.

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A proposta é corrigir o que realmente faz diferença no seu caso e aumentar as chances de uma gravidez natural de forma mais estratégica.

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Leitura recomendada: Para o panorama completo da suplementação, leiam o guia de suplementos para fertilidade. Se a questão envolve fertilidade após os 35, a vitamina D ganha ainda mais relevância no contexto geral.

Sobre o autor: Murilo Murr é Biomédico (CRBM 17665) e Nutricionista (CRN3 51723) especializado em fertilidade natural e saúde reprodutiva do casal. Criador do Método Casal Mais Fértil.

Aviso: Este conteúdo é educativo e não substitui orientação médica ou nutricional individualizada. Decisões sobre suplementação devem ser tomadas com acompanhamento profissional, considerando o perfil clínico de cada pessoa.

Última atualização: abril de 2026.

Referências

  1. Chu J, Gallos I, Tobias A, et al. Vitamin D and assisted reproductive treatment outcome: a systematic review and meta-analysis. Human Reproduction. 2018;33(1):65-80. doi:10.1093/humrep/dex326
  2. Blomberg Jensen M, Bjerrum PJ, Jessen TE, et al. Vitamin D is positively associated with sperm motility and increases intracellular calcium in human spermatozoa. Human Reproduction. 2011;26(6):1307-1317. doi:10.1093/humrep/der059
  3. Pilz S, Frisch S, Koertke H, et al. Effect of vitamin D supplementation on testosterone levels in men. Hormone and Metabolic Research. 2011;43(3):223-225. doi:10.1055/s-0030-1269854
  4. Paffoni A, Ferrari S, Viganò P, et al. Vitamin D deficiency and infertility: insights from in vitro fertilization cycles. Journal of Clinical Endocrinology and Metabolism. 2014;99(11):E2372-E2376. doi:10.1210/jc.2014-1802
  5. Maeda SS, Borba VZC, Camargo MBR, et al. Recommendations of the Brazilian Society of Endocrinology and Metabolism for the diagnosis and treatment of hypovitaminosis D. Arquivos Brasileiros de Endocrinologia & Metabologia. 2014;58(5):411-433. doi:10.1590/0004-2730000003388