Ultraprocessados concentram praticamente tudo que a ciência identifica como prejudicial à fertilidade em um único produto: gordura trans, açúcar refinado, aditivos químicos com potencial de disrupção endócrina e baixa densidade de nutrientes protetores. Segundo dados do IBGE, ultraprocessados já representam mais de 20% das calorias consumidas pelo brasileiro médio. O Nurses’ Health Study mostrou que gordura trans, presente em muitos ultraprocessados, é o componente dietético com maior impacto negativo comprovado na fertilidade ovulatória.
O que faz um ultraprocessado ser ultraprocessado
A classificação NOVA, desenvolvida pela Universidade de São Paulo e adotada pela OMS e pela FAO, divide os alimentos em quatro grupos. O grupo 4, ultraprocessados, inclui formulações industriais feitas predominantemente de substâncias derivadas de alimentos (óleos hidrogenados, xarope de milho, proteína isolada de soja) e aditivos (corantes, aromatizantes, emulsificantes, espessantes).
A regra prática para identificar: se a lista de ingredientes tem nomes que você não usaria na cozinha de casa, provavelmente é ultraprocessado. “Gordura vegetal hidrogenada”, “xarope de glicose”, “maltodextrina”, “lecitina de soja”, “aromatizante idêntico ao natural” são sinais claros.
Exemplos comuns: refrigerantes, salgadinhos, biscoitos recheados, macarrão instantâneo, salsicha, nuggets, sorvete industrial, barras de cereal com chocolate, iogurte com corante, pão de forma industrial, margarina.
Como os ultraprocessados prejudicam a fertilidade
Gordura trans: o pior componente para a ovulação
A gordura trans (presente como “gordura vegetal hidrogenada” ou “parcialmente hidrogenada”) é o componente dietético com maior impacto negativo documentado na fertilidade feminina. O Nurses’ Health Study mostrou que substituir apenas 2% das calorias de gordura trans por monoinsaturada reduzia o risco de infertilidade ovulatória em mais de 100%.
A gordura trans interfere no metabolismo da insulina, promove inflamação sistêmica e altera os níveis de estradiol. Mesmo em quantidades pequenas, o efeito é desproporcional porque ela se incorpora às membranas celulares e persiste no organismo.
Açúcar refinado: picos de insulina e anovulação
Ultraprocessados são frequentemente ricos em açúcar adicionado (sacarose, xarope de glicose, maltodextrina). O consumo crônico de açúcar refinado causa picos repetidos de insulina que, ao longo do tempo, levam à resistência à insulina. Essa resistência é o mecanismo central da SOP e está associada a anovulação crônica.
O Nurses’ Health Study encontrou que mulheres que consumiam mais carboidratos de alto índice glicêmico tinham maior risco de infertilidade ovulatória. O açúcar dos ultraprocessados é particularmente problemático porque vem em doses concentradas e sem a fibra que retardaria a absorção.
Aditivos com potencial disruptor endócrino
Emulsificantes, conservantes e corantes presentes em ultraprocessados têm sido estudados por seus potenciais efeitos no sistema hormonal. BHA, BHT (antioxidantes sintéticos) e alguns ftalatos usados em embalagens podem migrar para o alimento e agir como disruptores endócrinos.
A exposição individual a cada aditivo pode estar dentro dos limites regulatórios, mas o consumo simultâneo de dezenas de aditivos diferentes ao longo do dia (o cenário real de quem come muito ultraprocessado) nunca foi testado em conjunto.
Deslocamento de nutrientes protetores
Talvez o efeito mais subestimado: cada caloria de ultraprocessado é uma caloria que não veio de um alimento que forneceria nutrientes protetores. Quem almoça nuggets com batata frita não está comendo o salmão com brócolis que forneceria ômega-3, folato, zinco e antioxidantes. O problema não é apenas o que o ultraprocessado contém, mas o que ele substitui.
De acordo com o biomédico e nutricionista Murilo Murr, “muitos casais que atendo não comem ‘mal’ no sentido de comer pouco ou passar fome. Comem em quantidade suficiente, mas a densidade nutricional do que comem é baixa. Quando substituímos ultraprocessados por alimentos de verdade, os exames mudam em 2 a 3 meses. Não por mágica, mas por nutrição.”
Na fertilidade masculina
Estudos associam dietas ricas em ultraprocessados e carnes processadas a menor concentração espermática, motilidade reduzida e pior morfologia. Um estudo publicado na Human Reproduction com jovens dinamarqueses encontrou que os que consumiam dieta do tipo “Western” (rica em ultraprocessados, pizza, batata frita, doces) tinham parâmetros seminais significativamente piores do que os que seguiam padrão alimentar prudente.
A combinação de gordura trans + açúcar + baixo ômega-3 é particularmente nociva para os espermatozoides, que dependem de membranas lipídicas íntegras e proteção antioxidante. Detalhamos os parâmetros afetados no artigo sobre fertilidade masculina e espermograma.
O que o casal pode fazer hoje
1. Não tentem eliminar tudo de uma vez. Comece identificando os 3 ultraprocessados mais frequentes na rotina e substitua um por vez. Substituir é mais sustentável que restringir.
2. Leiam rótulos. Se a lista de ingredientes tem mais de 5 itens e inclui nomes que vocês não reconhecem, é ultraprocessado. Priorizem produtos com listas curtas de ingredientes reconhecíveis.
3. Cozinhem mais. A forma mais eficaz de reduzir ultraprocessados é preparar refeições em casa com alimentos in natura. Não precisa ser elaborado: arroz, feijão, ovo, salada e fruta já é uma refeição completa e infinitamente melhor que qualquer opção industrializada. O modelo do Prato Fértil facilita a montagem.
4. Atenção às armadilhas “saudáveis”. Barras de cereal, granola industrializada, sucos de caixinha, iogurtes com corante e “bolachas integrais” são frequentemente ultraprocessados disfarçados. Verifiquem o rótulo.
5. Planejem as refeições da semana. A falta de planejamento é o maior gatilho para o consumo de ultraprocessados. Quando não há comida pronta em casa, o delivery e o salgadinho ganham. Dedicar 30 minutos no domingo para planejar e preparar a base das refeições da semana faz diferença enorme.
Perguntas Frequentes – Ultraprocessados e Fertilidade
O que são alimentos ultraprocessados?
Formulações industriais feitas de substâncias derivadas de alimentos e aditivos, com pouco alimento inteiro. Refrigerantes, salgadinhos, biscoitos recheados, embutidos, macarrão instantâneo. Se a lista de ingredientes tem nomes de laboratório, é ultraprocessado.
Qual a diferença entre processado e ultraprocessado?
Processados são alimentos naturais com adição limitada de sal, açúcar ou óleo (queijo, sardinha em lata). Ultraprocessados são formulações industriais complexas com múltiplos aditivos. A distância do alimento original é a chave.
Comer ultraprocessados de vez em quando prejudica a fertilidade?
O consumo ocasional provavelmente não. O problema é o padrão crônico, quando constituem proporção alta da dieta ao longo de meses. Reduzir a frequência e a proporção importa mais que eliminar completamente.
Por que os ultraprocessados são tão prejudiciais para a fertilidade?
Concentram múltiplos fatores negativos: gordura trans, açúcar refinado, ômega-6 em excesso, aditivos com potencial disruptor endócrino e baixa densidade nutricional. A combinação é o que gera o impacto.
Um Plano Sob Medida Para Vocês

Se vocês querem entender como os ultraprocessados impactam a fertilidade — e o que fazer na prática para corrigir isso — o Programa Casal + Fértil foi desenvolvido para trazer clareza e direção nesse processo.
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A proposta é eliminar o que atrapalha e fortalecer o que realmente faz diferença, aumentando as chances de uma gravidez natural de forma mais estratégica.
Leitura recomendada: Para entender o papel da inflamação que os ultraprocessados causam, leia sobre alimentos anti-inflamatórios e fertilidade. Para as evidências mais robustas sobre dieta e fertilidade, veja o artigo sobre o Nurses’ Health Study. Para o guia completo, veja o guia sobre alimentação e fertilidade.
Sobre o autor: Murilo Murr é Biomédico (CRBM 17665) e Nutricionista (CRN3 51723) especializado em fertilidade natural e nutrição reprodutiva. Criador do Método Casal Mais Fértil, ajuda casais a prepararem o corpo para a concepção com base em evidências científicas. Saiba mais sobre o Murilo.
Disclaimer: Este conteúdo tem finalidade educativa e informativa. Não substitui consulta, diagnóstico ou tratamento médico. Cada caso é individual. Procure sempre orientação de profissionais de saúde qualificados.
Referências:
- Chavarro JE, Rich-Edwards JW, Rosner B, Willett WC. Dietary fatty acid intakes and the risk of ovulatory infertility. American Journal of Clinical Nutrition. 2007;85(1):231-237. doi:10.1093/ajcn/85.1.231
- Monteiro CA, Cannon G, Levy RB, et al. Ultra-processed foods: what they are and how to identify them. Public Health Nutrition. 2019;22(5):936-941. doi:10.1017/S1368980018003762
- Jensen TK, Heitmann BL, Jensen MB, et al. High dietary intake of saturated fat is associated with reduced semen quality among 701 young Danish men. American Journal of Clinical Nutrition. 2013;97(2):411-418. doi:10.3945/ajcn.112.042432
- Gaskins AJ, Chavarro JE. Diet and fertility: a review. American Journal of Obstetrics and Gynecology. 2018;218(4):379-389. doi:10.1016/j.ajog.2017.08.010
- Salas-Huetos A, Bulló M, Salas-Salvadó J. Dietary patterns, foods and nutrients in male fertility parameters and fecundability. Human Reproduction Update. 2017;23(4):371-389. doi:10.1093/humupd/dmx006

