A cafeína é a substância psicoativa mais consumida no mundo, e a boa notícia é que vocês provavelmente não precisam largar o café para engravidar. A Sociedade Americana de Medicina Reprodutiva (ASRM) considera seguro o consumo de até 200mg por dia (cerca de 2 xícaras de café filtrado) para mulheres tentando conceber. Acima desse limite, estudos prospectivos associam o consumo a maior tempo para concepção e, durante a gravidez, a risco ligeiramente aumentado de abortamento espontâneo.

 

O que a ciência diz sobre cafeína e concepção

A relação entre cafeína e fertilidade é dose-dependente. Consumo moderado parece seguro; consumo elevado levanta preocupações.

Um estudo prospectivo de Hatch e colaboradores, publicado na American Journal of Epidemiology, acompanhou mais de 3.600 mulheres tentando engravidar e encontrou que aquelas que consumiam mais de 300mg de cafeína por dia tinham probabilidade de concepção ligeiramente reduzida em comparação com as que consumiam menos de 100mg. Abaixo de 200mg, não houve diferença estatisticamente significativa.

Outro estudo, publicado na Fertility and Sterility, encontrou que consumo acima de 500mg por dia (5 ou mais xícaras) estava associado a tempo significativamente maior para concepção. A relação não era linear: entre 0 e 200mg, o efeito era mínimo; entre 200 e 500mg, moderado; acima de 500mg, mais pronunciado.

O mecanismo proposto envolve vasoconstrição no fluxo sanguíneo uterino e alteração nos níveis de estradiol, embora os mecanismos exatos ainda não estejam completamente esclarecidos. A cafeína também aumenta o cortisol, o que em doses altas pode se somar ao estresse crônico e seus efeitos na fertilidade.

 

E para ele?

A evidência para homens é menos consistente. A maioria dos estudos não encontra efeito negativo do consumo moderado de cafeína (até 300mg/dia) nos parâmetros do espermograma.

Porém, consumo muito elevado (acima de 800mg/dia) foi associado em alguns estudos a maior fragmentação do DNA espermático. Bebidas energéticas merecem atenção especial: além da cafeína em dose alta, contêm taurina e outros compostos cujos efeitos combinados na fertilidade são pouco estudados.

De acordo com o biomédico e nutricionista Murilo Murr, “para o homem, a cafeína em si não é o vilão principal. O problema aparece quando o café vem acompanhado de açúcar, sono ruim e energéticos. É o padrão de consumo que importa, não a xícara isolada.”

 

Fontes de cafeína que passam despercebidas

O erro mais comum é calcular a cafeína apenas pelo café e esquecer as outras fontes. Aqui está o quanto cada uma contribui:

Café filtrado (150ml): 80 a 100mg
Espresso (50ml): 60 a 80mg
Chá mate (200ml): 65 a 130mg
Chá verde (200ml): 30 a 50mg
Chá preto (200ml): 40 a 70mg
Refrigerante de cola (350ml): 30 a 45mg
Energético (250ml): 80 a 300mg
Chocolate amargo 70% (30g): 20 a 25mg
Pré-treino (dose padrão): 150 a 400mg

Somem tudo ao longo do dia. Uma pessoa que toma 2 cafés, 1 chá mate e 1 chocolate já pode estar em 300mg sem perceber. Os pré-treinos são especialmente perigosos: uma dose pode conter o dobro do limite recomendado.

 

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Cafeína e sono: a conexão esquecida

A meia-vida da cafeína no organismo é de 5 a 7 horas. Isso significa que um café às 16h ainda tem metade da cafeína ativa à meia-noite. Mesmo que vocês consigam adormecer, a cafeína reduz a proporção de sono profundo (ondas lentas), que é exatamente a fase em que ocorre a maior produção de testosterona e a regulação dos hormônios reprodutivos.

Esse efeito se conecta diretamente ao que abordamos no artigo sobre sono e fertilidade: sono de baixa qualidade eleva cortisol, reduz testosterona e pode comprometer a ovulação. Limitar a cafeína ao período da manhã (até 14h) protege tanto o limite diário quanto a qualidade do sono.

 

O que o casal pode fazer hoje

1. Calculem o consumo real. Somem todas as fontes de cafeína do dia de ambos. Se estão acima de 200mg (ela) ou 300mg (ele), há espaço para ajustar.

2. Definam o limite: até 200mg por dia para ela, até 300mg para ele. Na prática, 2 xícaras de café filtrado por dia para ambos é uma meta simples e segura que fica dentro da faixa para os dois.

3. Cortem a cafeína após as 14h. Troquem o café da tarde por chá de ervas sem cafeína (camomila, erva-cidreira, hortelã), água com limão ou água de coco.

4. Atenção aos pré-treinos. Se usam, verifiquem o teor de cafeína. Muitos contêm 200 a 400mg por dose, o que esgota ou ultrapassa o limite diário em uma tacada. Considerem versões sem cafeína durante o período de tentativas.

5. Não entrem em pânico. Um dia com 300mg não vai comprometer a fertilidade. O que importa é o padrão ao longo de semanas e meses. Consistência moderada é o objetivo.

 

Perguntas Frequentes – Cafeína e Fertilidade

Quanto café posso tomar por dia se estou tentando engravidar?

Até 200mg por dia (2 xícaras de café filtrado) é considerado seguro pela ASRM. Acima disso, alguns estudos associam o consumo a maior tempo para concepção.

A cafeína afeta a fertilidade masculina?

Consumo moderado (até 300mg) parece seguro. Acima de 800mg, há associação com maior fragmentação do DNA espermático. A recomendação prudente é manter entre 200 e 300mg.

Chá verde e chá mate contêm cafeína?

Sim. Chá verde: 30 a 50mg por xícara. Chá mate: 65 a 130mg. Cola: 30 a 45mg por lata. Energéticos: 80 a 300mg. Todas essas fontes devem ser somadas ao total diário.

Preciso cortar o café completamente para engravidar?

Não. Até 200mg por dia é seguro. Cortar completamente é desnecessário e pode gerar estresse. O foco deve ser respeitar o limite e evitar fontes ocultas que inflam o total sem perceber.

 

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Leitura recomendada: Para entender como a cafeína se encaixa na alimentação para fertilidade, veja o Prato Fértil. Para o impacto no sono (que é onde a cafeína mais prejudica indiretamente), leia sobre sono e fertilidade. Para o guia completo, veja o guia sobre alimentação e fertilidade.

Sobre o autor: Murilo Murr é Biomédico (CRBM 17665) e Nutricionista (CRN3 51723) especializado em fertilidade natural e nutrição reprodutiva. Criador do Método Casal Mais Fértil, ajuda casais a prepararem o corpo para a concepção com base em evidências científicas. Saiba mais sobre o Murilo.

Disclaimer: Este conteúdo tem finalidade educativa e informativa. Não substitui consulta, diagnóstico ou tratamento médico. Cada caso é individual. Procure sempre orientação de profissionais de saúde qualificados.

Referências:

  1. Practice Committee of ASRM. Optimizing natural fertility: a committee opinion. Fertility and Sterility. 2022;117(1):53-63. doi:10.1016/j.fertnstert.2021.10.007
  2. Hatch EE, Wise LA, Mikkelsen EM, et al. Caffeinated beverage and soda consumption and time to pregnancy. Epidemiology. 2012;23(3):393-401. doi:10.1097/EDE.0b013e31824cbaed
  3. Wesselink AK, Wise LA, Rothman KJ, et al. Caffeine and caffeinated beverage consumption and fecundability in a preconception cohort. Reproductive Toxicology. 2016;62:39-45. doi:10.1016/j.reprotox.2016.04.022
  4. Ricci E, Viganò P, Cipriani S, et al. Coffee and caffeine intake and male infertility: a systematic review. Nutrition Journal. 2017;16(1):37. doi:10.1186/s12937-017-0257-2
  5. Chen LW, Wu Y, Neelakantan N, et al. Maternal caffeine intake during pregnancy and risk of pregnancy loss: a categorical and dose-response meta-analysis. Public Health Nutrition. 2016;19(7):1233-1244. doi:10.1017/S1368980015002463