O Nurses’ Health Study II, conduzido pela Universidade de Harvard com mais de 18 mil mulheres tentando engravidar, é a maior base de evidências sobre alimentação e fertilidade disponível. Seus achados mostraram que mulheres que adotavam um padrão alimentar específico tinham risco até 66% menor de infertilidade por anovulação. Não se trata de uma dieta da fertilidade mágica, ou de consumir alimentos especiais, mas de um conjunto de escolhas de refeição que, combinadas, protegem a função ovulatória.
O que o estudo analisou
O Nurses’ Health Study II acompanhou mais de 116 mil enfermeiras americanas desde 1989. A vertente sobre fertilidade analisou especificamente as que tentavam engravidar e identificou quais padrões alimentares estavam associados a menor ou maior risco de infertilidade ovulatória (quando a mulher não ovula regularmente).
Os pesquisadores, liderados por Jorge Chavarro e Walter Willett da Harvard T.H. Chan School of Public Health, publicaram os resultados em uma série de artigos entre 2007 e 2009, e depois compilaram as descobertas no livro The Fertility Diet.
O estudo é valioso porque é prospectivo (acompanhou as mulheres ao longo do tempo, em vez de olhar para trás), grande (mais de 18 mil mulheres tentando engravidar) e controlou múltiplas variáveis (idade, peso, atividade física, tabagismo).
As 7 descobertas principais da pesquisa
1. Gordura trans é o pior tipo para a fertilidade
De todas as descobertas, esta foi a mais impactante. Substituir apenas 2% das calorias de gordura trans por gordura monoinsaturada reduzia o risco de infertilidade ovulatória em mais de 100%. Gordura trans está presente em margarinas hidrogenadas, biscoitos industriais, salgadinhos de pacote e frituras de fast food.
É o tipo de gordura com o pior impacto comprovado na fertilidade. A boa notícia: eliminá-la da dieta é relativamente simples. Basta ler rótulos e evitar alimentos com “gordura vegetal hidrogenada” na lista de ingredientes.
2. Carboidratos lentos protegem a ovulação
Mulheres que consumiam mais carboidratos de baixo índice glicêmico (integrais, leguminosas, vegetais) tinham menor risco de infertilidade ovulatória em comparação com as que consumiam carboidratos refinados. O mecanismo: carboidratos de absorção rápida causam picos de insulina, e insulina elevada cronicamente interfere na produção de hormônios ovulatórios.
Na prática: preferir arroz integral ao branco, trocar pão branco por integral, incluir leguminosas (feijão, lentilha, grão-de-bico) regularmente. Incorporamos essa lógica no modelo do Prato Fértil.
3. Proteína vegetal complementando a animal
O estudo encontrou que substituir uma porção de proteína animal por proteína vegetal por dia estava associado a redução de 50% no risco de infertilidade ovulatória. Isso não significa eliminar carne, mas incluir mais leguminosas, nozes e sementes na rotina.
A hipótese: proteína vegetal vem acompanhada de fibra, micronutrientes e fitonutrientes ausentes na proteína animal, e sem a gordura saturada em excesso de carnes gordas e processadas.
4. Laticínios integrais sobre desnatados
Uma ou mais porções diárias de laticínios integrais foram associadas a menor risco de infertilidade ovulatória. Laticínios desnatados mostraram o efeito oposto. A hipótese é que o processo de desnatamento remove hormônios lipossolúveis protetores e altera a proporção de fatores de crescimento.
Não é recomendação para exagerar: 1 a 2 porções por dia de iogurte integral, leite integral ou queijo fresco é suficiente.
5. Ferro não-heme (vegetal) protege
Mulheres que consumiam mais ferro de fontes vegetais (feijão, lentilha, espinafre, suplemento) tinham menor risco de infertilidade ovulatória. Curiosamente, o ferro heme (de carne) não mostrou a mesma associação protetora nesse estudo específico.
O ferro não-heme é melhor absorvido com vitamina C. A combinação clássica brasileira de feijão com limão e salada é, coincidentemente, ideal.
6. Multivitamínico com ácido fólico
Mulheres que usavam multivitamínico contendo ácido fólico tinham menor risco de infertilidade ovulatória. O folato é o nutriente número 1 para pré-concepção, com benefícios que vão além da prevenção de defeitos do tubo neural.
7. Peso dentro da faixa saudável
Embora não seja exclusivamente dietético, o estudo confirmou que IMC entre 20 e 24 estava associado ao menor risco de infertilidade. Abaixo de 18,5 e acima de 25, os riscos aumentavam progressivamente. Detalhamos esse fator no artigo sobre o que prejudica a fertilidade.
O “score de fertilidade”
Chavarro e equipe criaram uma pontuação combinada: quanto mais dos 7 fatores a mulher adotava simultaneamente, maior a proteção. Mulheres no quintil mais alto (que adotavam 5 ou mais fatores) tinham risco 66% menor de infertilidade ovulatória em comparação com as do quintil mais baixo.
De acordo com o biomédico e nutricionista Murilo Murr, “o mais interessante do Nurses’ Health Study é que cada fator contribui de forma independente. Não é tudo ou nada. Se o casal conseguir adotar 3 dos 7 fatores, já está em posição significativamente melhor do que antes. A soma dos pequenos ajustes é o que gera o resultado.”
Limitações que vocês devem conhecer
Nenhum estudo é perfeito. O NHS II tem três limitações importantes:
Foco em infertilidade ovulatória. Os achados se aplicam especificamente a mulheres que não ovulam regularmente. Para causas como obstrução tubária, endometriose severa ou fator masculino grave, a dieta melhora o contexto geral mas não resolve a causa específica.
População do estudo. Enfermeiras americanas, predominantemente brancas. A aplicabilidade a outras populações é provável (os mecanismos biológicos são universais), mas não foi testada diretamente.
Estudo observacional. Mostra associação, não causalidade comprovada. Porém, os achados são coerentes com a biologia reprodutiva e com estudos de intervenção menores.
Perguntas Frequentes – Pesquisa da Dieta da Fertilidade
O que é o Nurses’ Health Study?
Um dos maiores estudos prospectivos de saúde feminina do mundo, conduzido por Harvard, acompanhando mais de 116 mil enfermeiras desde 1989. A vertente de fertilidade analisou mais de 18 mil mulheres tentando engravidar.
A dieta da fertilidade funciona para todos os tipos de infertilidade?
O estudo focou em infertilidade ovulatória, com resultados robustos: risco até 66% menor. Para outras causas, a dieta melhora o contexto geral mas não resolve a causa específica.
Preciso seguir todas as recomendações ao mesmo tempo?
Não. Cada fator contribui individualmente. Começar por 2 a 3 mudanças e ir somando é mais sustentável e já faz diferença.
Um Plano Sob Medida Para o Casal

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A proposta é aplicar o que tem base científica de forma prática e aumentar as chances de uma gravidez natural com mais estratégia.
Leitura recomendada: Para aplicar essas descobertas no dia a dia, veja o artigo sobre o Prato Fértil. Para entender os nutrientes individualmente, leia sobre os 8 nutrientes essenciais. Para o guia nutricional completo, veja o guia sobre alimentação e fertilidade.
Sobre o autor: Murilo Murr é Biomédico (CRBM 17665) e Nutricionista (CRN3 51723) especializado em fertilidade natural e nutrição reprodutiva. Criador do Método Casal Mais Fértil, ajuda casais a prepararem o corpo para a concepção com base em evidências científicas. Saiba mais sobre o Murilo.
Disclaimer: Este conteúdo tem finalidade educativa e informativa. Não substitui consulta, diagnóstico ou tratamento médico. Cada caso é individual. Procure sempre orientação de profissionais de saúde qualificados.
Referências:
- Chavarro JE, Rich-Edwards JW, Rosner BA, Willett WC. Diet and lifestyle in the prevention of ovulatory disorder infertility. Obstetrics & Gynecology. 2007;110(5):1050-1058. doi:10.1097/01.AOG.0000287293.25465.e1
- Chavarro JE, Rich-Edwards JW, Rosner B, Willett WC. Dietary fatty acid intakes and the risk of ovulatory infertility. American Journal of Clinical Nutrition. 2007;85(1):231-237. doi:10.1093/ajcn/85.1.231
- Chavarro JE, Rich-Edwards JW, Rosner B, Willett WC. A prospective study of dairy foods intake and anovulatory infertility. Human Reproduction. 2007;22(5):1340-1347. doi:10.1093/humrep/dem019
- Chavarro JE, Rich-Edwards JW, Rosner BA, Willett WC. A prospective study of dietary carbohydrate quantity and quality in relation to risk of ovulatory infertility. European Journal of Clinical Nutrition. 2009;63(1):78-86. doi:10.1038/sj.ejcn.1602904
- Chavarro JE, Rich-Edwards JW, Rosner BA, Willett WC. Iron intake and risk of ovulatory infertility. Obstetrics & Gynecology. 2006;108(5):1145-1152. doi:10.1097/01.AOG.0000238333.37423.ab

