A fertilidade do casal é influenciada por dezenas de fatores que vão além da idade e do sistema reprodutivo. Peso corporal, nível de estresse, consumo de álcool e tabaco, exposição a substâncias químicas e até hábitos aparentemente inofensivos são fatores que podem reduzir as chances de concepção sem gerar sintomas visíveis. Segundo um estudo publicado na Human Reproduction Update, fatores ambientais e de estilo de vida contribuem para até 40% dos casos de subfertilidade em casais sem diagnóstico aparente.
1. Peso fora da faixa saudável
O peso corporal afeta a fertilidade por vias hormonais. O tecido adiposo não é apenas reserva de energia: ele produz e metaboliza hormônios, incluindo o estrogênio.
Na mulher: O excesso de gordura corporal aumenta os níveis de estrogênio circulante e pode causar resistência à insulina, ambos associados a ciclos anovulatórios e irregularidade menstrual. Mulheres com IMC acima de 30 têm probabilidade significativamente maior de não ovular regularmente. No outro extremo, o peso muito baixo (IMC abaixo de 18,5) pode suprimir o eixo hormonal e interromper a menstruação por completo.
No homem: A obesidade aumenta a conversão de testosterona em estrogênio pela enzima aromatase. Resultado: menor concentração espermática, motilidade reduzida e maior porcentagem de formas anormais. Como detalhamos no artigo sobre fertilidade masculina e espermograma, esses parâmetros respondem a mudanças no estilo de vida ao longo de 2 a 3 meses.
O que fazer: A meta não é atingir um peso “perfeito”, mas estar dentro da faixa de IMC entre 18,5 e 24,9. Reduções de apenas 5 a 10% do peso corporal já podem restabelecer ciclos ovulatórios em mulheres com sobrepeso.
2. Tabagismo
O tabaco é o sabotador mais consistentemente comprovado pela ciência. Afeta os dois lados do casal.
Na mulher: Fumar acelera o envelhecimento ovariano. Fumantes entram na menopausa em média 1 a 4 anos antes do que não fumantes, segundo dados do ACOG. Além disso, as toxinas do cigarro danificam diretamente os óvulos e o revestimento uterino, dificultando tanto a fecundação quanto a implantação.
No homem: Uma meta-análise na European Urology mostrou que fumar reduz a concentração espermática em 13 a 17% e aumenta a fragmentação do DNA dos espermatozoides. O efeito é dose-dependente: quanto mais cigarros, maior o dano.
O que fazer: Parar. Os benefícios para a fertilidade começam a aparecer dentro de 3 meses (o tempo de um ciclo completo de espermatogênese). Mesmo a redução do consumo já ajuda, mas a cessação completa é o objetivo.
3. Álcool
A relação entre álcool e fertilidade é dose-dependente, mas não existe um nível comprovadamente seguro.
Consumo pesado (mais de 14 doses por semana) afeta ambos os parceiros de forma clara: queda na testosterona, piora dos parâmetros seminais no homem, e irregularidade ovulatória na mulher. Consumo moderado (7 a 14 doses) tem efeitos menos definidos, mas estudos dinamarqueses com grandes amostras encontraram que mulheres que consumiam mais de 7 doses por semana tinham tempo significativamente maior para concepção.
O que fazer: Reduzir ao mínimo durante o período de tentativas. Se eliminar completamente não for viável, manter abaixo de 4 doses por semana para ambos é uma meta razoável baseada na literatura disponível.
4. Estresse crônico
O estresse merece uma abordagem equilibrada. Sim, ele pode prejudicar a fertilidade. Não, “é só relaxar que engravida” não é conselho aceitável.
O cortisol cronicamente elevado interfere no eixo hipotálamo-hipófise-gonadal, que regula a produção de hormônios reprodutivos. Na mulher, pode causar ciclos anovulatórios ou fases lúteas curtas. No homem, reduz a produção de testosterona e FSH. Um estudo publicado na Human Reproduction com mais de 400 casais mostrou que mulheres com os maiores níveis de alfa-amilase salivar (um marcador de estresse) tiveram 29% menos probabilidade de concepção por ciclo.
De acordo com o biomédico e nutricionista Murilo Murr, “o estresse é um fator real, mas nunca deve ser usado para culpar o casal. A solução não é ‘relaxar’, é identificar fontes crônicas de estresse e agir sobre elas de forma concreta: sono, atividade física, limites de trabalho, e quando necessário, apoio profissional.”
5. Cafeína em excesso
A boa notícia: você provavelmente não precisa largar o café. Até 200 a 300mg de cafeína por dia (2 a 3 xícaras de café filtrado) parece seguro para a fertilidade, segundo revisão da ASRM.
Acima disso, os dados ficam menos tranquilizadores. Consumo acima de 500mg/dia foi associado a maior tempo para concepção em alguns estudos, e o consumo elevado durante a gravidez está ligado a risco aumentado de abortamento.
O que fazer: Não precisa cortar, mas mantenha abaixo de 200mg por dia para maior segurança. Lembrem que cafeína não está só no café: chá preto, chá verde, refrigerantes de cola, energéticos e chocolate também contêm.
6. Disruptores endócrinos
Substâncias químicas presentes no cotidiano podem interferir no sistema hormonal. São chamadas de disruptores endócrinos e incluem ftalatos (em plásticos flexíveis e cosméticos), parabenos (em produtos de higiene), bisfenol A (BPA) (em plásticos rígidos e revestimentos de latas) e pesticidas organoclorados (em alimentos convencionais).
A exposição isolada a cada substância pode não causar efeito mensurável. O problema é a exposição crônica a múltiplas fontes simultaneamente, o chamado “efeito coquetel”. Estudos associam exposição elevada a ftalatos com menor qualidade espermática e exposição a BPA com alterações no ciclo menstrual.
O que fazer: Reduzir a exposição onde for mais fácil. Trocar recipientes plásticos por vidro para aquecer alimentos, preferir cosméticos sem parabenos, lavar bem frutas e verduras, evitar aquecer comida em embalagens plásticas. Não é possível eliminar toda exposição, mas a redução faz diferença cumulativa.
7. Sedentarismo (e exercício em excesso)
Os dois extremos prejudicam. O sedentarismo contribui para ganho de peso, resistência à insulina e inflamação crônica, todos associados a menor fertilidade. No homem, ficar sentado por longos períodos também eleva a temperatura escrotal.
No outro extremo, exercício excessivo pode suprimir a ovulação. Mulheres atletas com treinamento intenso e baixo percentual de gordura corporal apresentam maior incidência de amenorreia hipotalâmica (ausência de menstruação por supressão hormonal).
A zona ótima: atividade física moderada, 150 a 300 minutos por semana (caminhada, natação, musculação moderada, yoga). Essa faixa está associada aos melhores desfechos reprodutivos em ambos os sexos.
8. Sono insuficiente ou irregular
O sono regula a produção de hormônios reprodutivos. A secreção de LH, FSH e testosterona segue ritmos circadianos, e a privação de sono os desorganiza.
Mulheres que dormem menos de 6 horas por noite têm risco significativamente maior de ciclos irregulares e anovulação. No homem, uma semana de restrição de sono (5 horas por noite) reduz os níveis de testosterona em até 15%, segundo estudo da JAMA.
O que fazer: Buscar 7 a 9 horas de sono por noite, com horários regulares de dormir e acordar. A regularidade importa tanto quanto a duração: dormir 8 horas em horários aleatórios não substitui uma rotina consistente.
Perguntas Frequentes – O que prejudica a fertilidade
Quantas xícaras de café por dia são seguras para quem está tentando engravidar?
Até 2 a 3 xícaras de café filtrado por dia (200 a 300mg de cafeína) parecem seguras. Acima disso, alguns estudos associam o consumo a maior tempo para concepção. Na dúvida, manter abaixo de 200mg é a recomendação mais prudente.
O estresse realmente impede de engravidar?
O estresse crônico pode prejudicar a fertilidade ao interferir nos hormônios reprodutivos. Mas dizer que “é só relaxar” é uma simplificação. O estresse é um fator entre muitos, e sua influência varia. A solução é agir sobre as fontes de estresse, não se culpar.
Qual é o peso ideal para engravidar?
A faixa de IMC entre 18,5 e 24,9 está associada às melhores taxas de fertilidade. Tanto o peso acima quanto abaixo pode interferir na ovulação e na qualidade espermática. Reduções de 5 a 10% já podem restaurar ciclos regulares em mulheres com sobrepeso.
Preciso parar totalmente de beber álcool para engravidar?
Não há consenso sobre um nível totalmente seguro. O consumo pesado (mais de 14 doses/semana) tem impacto claro. O consumo moderado tem efeitos menos definidos, mas a recomendação prudente é reduzir ao mínimo durante as tentativas.
Produtos de limpeza e cosméticos podem afetar a fertilidade?
Alguns, sim. Disruptores endócrinos como ftalatos, parabenos e BPA estão presentes em plásticos, cosméticos e produtos de limpeza. A exposição crônica a múltiplas fontes pode contribuir para alterações reprodutivas. Reduzir onde for prático já ajuda.
Como Corrigir Sabotadores e Maximizar a Fertilidade

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Leitura recomendada: Este artigo faz parte da série sobre fertilidade do casal. Para o quadro completo, leia o guia completo de fertilidade para casais. Para entender como a idade se soma a esses fatores, veja nosso artigo sobre fertilidade depois dos 35.
Sobre o autor: Murilo Murr é Biomédico (CRBM 17665) e Nutricionista (CRN3 51723) especializado em fertilidade natural e nutrição reprodutiva. Criador do Método Casal Mais Fértil, ajuda casais a prepararem o corpo para a concepção com base em evidências científicas. Saiba mais sobre o Murilo.
Disclaimer: Este conteúdo tem finalidade educativa e informativa. Não substitui consulta, diagnóstico ou tratamento médico. Cada caso é individual. Procure sempre orientação de profissionais de saúde qualificados.
Referências:
- Sharma R, Biedenharn KR, Fedor JM, Agarwal A. Lifestyle factors and reproductive health: taking control of your fertility. Reproductive Biology and Endocrinology. 2013;11:66. doi:10.1186/1477-7827-11-66
- Sharma R, Harlev A, Agarwal A, Esteves SC. Cigarette smoking and semen quality: a new meta-analysis. European Urology. 2016;70(4):635-645. doi:10.1016/j.eururo.2016.04.010
- Lynch CD, Sundaram R, Maisog JM, et al. Preconception stress increases the risk of infertility. Human Reproduction. 2014;29(5):1067-1075. doi:10.1093/humrep/deu032
- Leproult R, Van Cauter E. Effect of 1 week of sleep restriction on testosterone levels in young healthy men. JAMA. 2011;305(21):2173-2174. doi:10.1001/jama.2011.710
- Practice Committee of ASRM. Optimizing natural fertility: a committee opinion. Fertility and Sterility. 2022;117(1):53-63. doi:10.1016/j.fertnstert.2021.10.007

