Receber a notícia de que tem um cisto no ovário gera preocupação imediata — especialmente para quem está tentando engravidar. A boa notícia é que a maioria dos cistos ovarianos é benigna e não compromete a fertilidade. Mas existem exceções que merecem atenção.

Neste artigo, explicamos quais tipos de cistos podem afetar a ovulação, quando é necessário tratamento e como preservar a capacidade reprodutiva. As informações são baseadas em evidências científicas e orientações de sociedades médicas.

O que são cistos ovarianos?

Cistos ovarianos são sacos preenchidos por líquido que se formam dentro ou na superfície do ovário. Eles são extremamente comuns — estima-se que até 70% das mulheres em idade fértil desenvolvam pelo menos um cisto ao longo da vida, muitas vezes sem saber.

A grande maioria dos cistos é funcional, ou seja, está diretamente ligada ao ciclo menstrual e tende a desaparecer sozinha em 1 a 3 ciclos. Apenas uma minoria representa condições que exigem acompanhamento médico mais rigoroso.

Para entender como os cistos se formam, é útil conhecer o processo normal de ovulação. Todo mês, o ovário desenvolve um folículo que armazena o óvulo. Quando esse folículo se rompe e libera o óvulo, forma-se o corpo lúteo — uma estrutura temporária que produz progesterona. Cistos funcionais surgem quando esse processo não se completa como esperado.

Tipos de cistos: funcionais vs. patológicos

Nem todo cisto ovariano tem a mesma origem nem o mesmo impacto sobre a fertilidade. A classificação principal divide os cistos em duas categorias:

Cistos funcionais

São os mais comuns e incluem:

  • Cisto folicular: ocorre quando o folículo amadurece, mas não rompe para liberar o óvulo. O líquido continua se acumulando, formando o cisto. Geralmente desaparece em 1 a 3 ciclos.
  • Cisto de corpo lúteo: se forma após a ovulação, quando o corpo lúteo se preenche de sangue ou líquido em vez de se regrair normalmente. Na maioria das vezes, resolve espontaneamente.

Os cistos funcionais raramente afetam a fertilidade. Eles interferem pontualmente na ovulação do ciclo em que aparecem, mas não comprometem a capacidade reprodutiva a longo prazo.

Cistos patológicos

São menos comuns e podem exigir tratamento:

  • Endometrioma: cisto formado por tecido endometrial implantado no ovário, associado à endometriose. Afeta diretamente a reserva ovariana.
  • Cistoadenoma: tumor benigno que pode crescer significativamente e exigir remoção cirúrgica.
  • Dermoide (teratoma): cisto congênito contendo tecidos como gordura, cabelo e cartilagem. Raramente afeta fertilidade, mas pode necessitar de cirurgia pelo tamanho.
  • Síndrome dos ovários policísticos (SOP): condição crônica caracterizada por múltiplos cistos pequenos e desregulação hormonal.

Cistos funcionais e ovulação: o que muda?

Quando um cisto funcional se forma, ele pode interromper a ovulação naquele ciclo específico. O folículo que deveria liberar o óvulo se transforma no cisto, e a ovulação não acontece — ou acontece de forma irregular.

Porém, isso não significa que a mulher ficou infértil. Na maioria dos casos, o ciclo seguinte se normaliza. O problema surge quando cistos funcionais recorrem com frequência, sinalizando uma possível desregulação hormonal que merece investigação.

Se você percebe que seus ciclos estão irregulares ou que está tendo cistos recorrentes, vale a pena realizar exames de fertilidade para avaliar a ovulação e os hormônios reprodutivos. Um ultrassom transvaginal e a dosagem de hormônios como FSH, LH, estradiol e AMH ajudam a mapear o que está acontecendo.

💡 Dica: Se você quer acompanhar sua ovulação e entender melhor seus ciclos, o Programa Casal Mais Fértil oferece ferramentas e suporte especializado para casais em busca de concepção.

SOP e múltiplos cistos: entenda a diferença

A Síndrome dos Ovários Policísticos (SOP) afeta entre 6% e 12% das mulheres em idade reprodutiva e é uma das principais causas de infertilidade anovulatória. Apesar do nome, a SOP não é simplesmente “ter muitos cistos” — é uma condição endócrina com critérios diagnósticos específicos.

Na SOP, os ovários contêm múltiplos folículos pequenos (geralmente mais de 12 em cada ovário) que não amadurecem o suficiente para ovular. Esses folículos não chegam a se tornar cistos propriamente ditos, mas o padrão de “ovários policísticos” no ultrassom é um dos critérios diagnósticos.

Os principais sintomas da SOP incluem:

  • Ciclos menstruais irregulares (intervalos maiores que 35 dias ou ausência de menstruação)
  • Sinais de excesso de andrógenos (acne, crescimento de pelos faciais, queda de cabelo)
  • Dificuldade para engravidar por falta de ovulação regular

O impacto da SOP na fertilidade não vem dos cistos em si, mas da ausência de ovulação. O tratamento inicial costuma ser com indutores de ovulação como o citrato de clomifeno (Indux) ou o letrozol, que apresentam taxas de sucesso significativas. Cerca de 70 a 80% das mulheres com SOP ovulam com indução medicamentosa, e a taxa de gravidez por ciclo fica entre 10 e 15%.

Endometrioma: o cisto que mais afeta a fertilidade

Dentre todos os tipos de cistos ovarianos, o endometrioma é o que mais preocupa em termos de fertilidade. Ele se forma quando tecido endometrial — o mesmo que reveste o útero — se implanta no ovário e forma um cisto preenchido por sangue escuro e espesso, por isso também é chamado de “cisto de chocolate”.

O endometrioma afeta a fertilidade de múltiplas formas:

  • Redução da reserva ovariana: o cisto substitui e danifica o tecido ovariano saudável, diminuindo a quantidade de óvulos disponíveis
  • Alteração da qualidade dos óvulos: o ambiente inflamatório dentro do ovário compromete a maturação dos óvulos
  • Aderências pélvicas: a endometriose pode causar cicatrizes que distorcem a anatomia e impedem o encontro do óvulo com o espermatozoide
  • Alteração do líquido folicular: substâncias inflamatórias presentes no cisto podem afetar a qualidade do folículo vizinho

Estudos mostram que mulheres com endometrioma apresentam taxas de gravidez natural reduzidas. Uma revisão sistemática de 2022 com 36 estudos avaliou o impacto da cirurgia para remoção de endometriomas e encontrou resultados variáveis — em alguns casos, a cirurgia melhorou as chances; em outros, a remoção do tecido ovariano junto com o cisto reduziu ainda mais a reserva.

A conduta depende do tamanho do cisto, da reserva ovariana da paciente e de se há outros fatores de infertilidade associados. Endometriomas menores que 3 cm podem ser acompanhados sem cirurgia, especialmente se a paciente vai fazer fertilização in vitro (FIV).

Quando o cisto precisa de cirurgia?

Nem todo cisto exige intervenção cirúrgica. A decisão depende de vários fatores:

  • Tamanho: cistos maiores que 5-7 cm têm menor chance de resolução espontânea e maior risco de complicações como torção ovariana
  • Características ao ultrassom: cistos com componentes sólidos, septos grossos ou fluxo sanguíneo anormal merecem avaliação mais detalhada
  • Persistência: cistos que não resolvem após 2 a 3 ciclos menstruais precisam de reavaliação
  • Sintomas: dor pélvica intensa, sangramento irregular ou sinais de compressão de órgãos vizinhos
  • Idade: cistos em mulheres na pós-menopausa merecem maior atenção devido ao risco aumentado de malignidade

A cirurgia mais indicada é a laparoscopia (cirurgia por videolaparoscopia), que permite a remoção do cisto com menor agressão ao tecido ovariano. Existem duas técnicas principais:

  • Cistectomia: remoção apenas do cisto, preservando o tecido ovariano saudável. É a técnica preferida quando se deseja preservar a fertilidade.
  • Ooforectomia: remoção de todo o ovário. Indicada apenas em casos de suspeita de malignidade ou quando o ovário está completamente comprometido.

Fertilidade após a cirurgia de cisto ovariano

A recuperação da fertilidade após a remoção cirúrgica de um cisto depende do tipo de cisto e da técnica utilizada. Alguns pontos importantes:

  • Cistos funcionais: como geralmente não necessitam de cirurgia, a fertilidade não é impactada
  • Endometriomas: a cirurgia pode melhorar as chances naturais em alguns casos, mas há risco de redução da reserva ovariana. Estudos indicam que a taxa de recorrência do endometrioma após cirurgia é de 20 a 40% em 2 anos
  • Cistoadenomas e dermoides: a cistectomia preserva o ovário e a fertilidade é mantida na maioria dos casos

Após a cirurgia, o casal pode tentar concepção natural por 6 a 12 meses, dependendo da idade da mulher e de outros fatores. Se a gravidez não ocorrer nesse período, a avaliação por um especialista em reprodução humana é recomendada.

Casais que passaram por cirurgia ovariana e querem entender melhor seu ciclo ovulatório e os exames disponíveis para avaliar a fertilidade têm mais chances de tomar decisões informadas sobre o próximo passo.

Acompanhar o período fértil após a cirurgia é fundamental para otimizar as tentativas. Se você quer orientação personalizada sobre como engravidar após uma cirurgia de cisto ovariano, o Programa Casal Mais Fértil oferece acompanhamento especializado com profissionais de saúde reprodutiva.

Cisto no ovário e fertilidade: o que levar em casa

A maioria dos cistos ovarianos não é motivo de pânico. Cistos funcionais são parte normal do ciclo menstrual e raramente afetam a fertilidade. Quando há suspeita de condições como SOP ou endometrioma, o diagnóstico precoce e o tratamento adequado fazem diferença real nas chances de gravidez.

Os pontos-chave para quem está tentando engravidar:

  • Cistos funcionais geralmente desaparecem sozinhos e não comprometem a fertilidade a longo prazo
  • SOP é tratável com indução da ovulação e mudanças no estilo de vida
  • Endometriomas merecem acompanhamento especializado, pois podem reduzir a reserva ovariana
  • Cirurgia é indicada apenas quando necessário — e a técnica preservativa (cistectomia) mantém a fertilidade na maioria dos casos
  • Investigação completa com exames hormonais e de imagem é o primeiro passo para um plano de tratamento eficaz

Se você recebeu o diagnóstico de cisto ovariano e está tentando engravidar, não hesite em buscar acompanhamento médico especializado. Quanto antes a condição for avaliada, mais opções terapêuticas estarão disponíveis — e maiores serão as chances de uma gestação saudável.