O homem pode e deve assumir a responsabilidade por aumentar as chances de engravidar do casal. O fator masculino está presente em aproximadamente 40 a 50% dos casos de dificuldade para engravidar. Apesar disso, a preparação para a concepção ainda costuma ser vista como responsabilidade exclusiva da mulher. A qualidade do esperma responde diretamente à alimentação, ao sono, ao nível de estresse e ao estilo de vida do homem, e pode ser significativamente melhorada em um ciclo de 2 a 3 meses com as mudanças certas.

 

Quando um casal começa a tentar engravidar e o tempo passa sem resultado, o caminho natural é investigar o lado feminino. Exames hormonais, ultrassom, consultas com ginecologista. Tudo isso é importante. Mas há um lado da equação que fica de fora com uma frequência surpreendente: o dele.

Segundo a Sociedade Americana de Medicina Reprodutiva, em quase metade dos casos de dificuldade para conceber, o fator masculino está presente, seja como causa exclusiva ou como fator contribuinte. Um espermograma simples pode revelar informações que mudam completamente o rumo da investigação.

E o que é mais importante saber: a qualidade do esperma não é um dado fixo. Ela responde ao que o homem come, dorme, respira e sente. Isso significa que ela pode piorar, sim, mas também pode melhorar.

 

O que o espermograma avalia

O espermograma é o exame de referência para avaliar a saúde reprodutiva masculina. É simples, não invasivo e barato, mas muitos homens chegam a anos de tentativa sem nunca tê-lo feito.

Os parâmetros avaliados são:

Concentração: quantos espermatozoides há por mililitro de ejaculado. O valor de referência da Organização Mundial da Saúde (OMS) é de pelo menos 16 milhões por mililitro.

Motilidade: a porcentagem de espermatozoides que se movem e a qualidade desse movimento. Há duas categorias principais: motilidade progressiva (esperma que se move em linha reta ou em grandes círculos, em direção ao óvulo) e motilidade total. A OMS considera 42% de motilidade total como limite inferior.

Morfologia: a porcentagem de espermatozoides com forma normal. Esse é o parâmetro mais sensível ao estilo de vida e ao estresse oxidativo. Pelo critério de Kruger (o mais rigoroso e usado nos melhores laboratórios), o valor de referência é de pelo menos 4% de formas normais. Parece pouco, mas é o padrão adotado internacionalmente.

Volume e pH: parâmetros do líquido seminal que também dizem algo sobre a saúde das glândulas reprodutivas masculinas.

Um espermograma alterado em um parâmetro não é uma sentença. É um ponto de partida para entender o que precisa melhorar.

 

Por que o esperma de hoje foi formado há 74 dias

Essa é a informação que mais muda a perspectiva dos homens sobre o próprio papel na concepção.

O ciclo completo de formação espermática (espermatogênese) dura aproximadamente 74 dias. Isso significa que o espermatozoide que está no ejaculado hoje começou a ser produzido dois meses e meio atrás. Tudo o que o homem viveu nesse período, a alimentação, o sono, o estresse, o cigarro, o álcool, a exposição ao calor, ficou registrado na qualidade desse esperma.

A consequência prática é dupla. Primeiro, mudanças de hábito levam tempo para aparecer no espermograma. Se o homem parou de fumar ontem, o próximo espermograma ainda vai refletir os danos do tabagismo. O resultado que reflete os novos hábitos aparece só depois de um ciclo completo de formação, ou seja, cerca de 3 meses depois.

Segundo, a janela de impacto é real. O homem que se prepara com 3 meses de antecedência está contribuindo com um esperma genuinamente diferente do homem que não se preparou.

 

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Os principais inimigos da qualidade espermática

Tabagismo

A evidência aqui é sólida e consistente. Estudos mostram que homens que fumam apresentam concentração espermática 13 a 17% menor do que não fumantes, além de maior fragmentação do DNA do espermatozoide. O tabagismo aumenta o estresse oxidativo nos testículos de forma sistêmica, e esse dano se acumula ao longo do tempo.

Parar de fumar é a mudança com maior retorno sobre o esperma, e os efeitos começam a aparecer dentro de um ciclo espermático.

Álcool

O consumo frequente de álcool reduz os níveis de testosterona e piora parâmetros como motilidade e morfologia. Consumo moderado (até uma dose por dia) tem impacto menor, mas, no período de preparação pré-concepcional, a recomendação mais segura é a abstinência ou redução expressiva.

Calor excessivo na região escrotal

Os testículos ficam fora do corpo por um motivo: eles precisam de temperatura cerca de 2°C abaixo da temperatura corporal para produzir espermatozoides com qualidade. Saunas, banheiras de água quente, laptop apoiado na virilha e roupas íntimas muito apertadas por períodos longos elevam essa temperatura e podem comprometer a espermatogênese.

Não é preciso paranoia. Uma sauna eventual não vai destruir o esperma de um homem saudável. Mas hábitos crônicos de exposição ao calor têm impacto real e mensurável nos parâmetros.

Sedentarismo e obesidade

O excesso de gordura corporal aumenta a conversão de testosterona em estrogênio, desequilibrando o perfil hormonal masculino. Além disso, o tecido adiposo acumulado na região pélvica eleva a temperatura local. Homens com IMC acima de 30 apresentam, em média, parâmetros espermáticos piores do que homens com peso normal.

Atividade física moderada e regular melhora a sensibilidade à insulina, reduz o estresse oxidativo e contribui para o equilíbrio hormonal. O ponto de atenção é não exagerar: exercício físico extremo (como maratonas frequentes ou treinos de alta intensidade sem recuperação adequada) também pode comprometer temporariamente o esperma.

Estresse crônico

O cortisol elevado de forma persistente suprime o eixo hipotálamo-hipófise-gônadas, reduzindo a produção de testosterona e LH. Os efeitos sobre o esperma aparecem na concentração e na motilidade. Gerenciar o estresse não é um conselho vago: é uma recomendação com base fisiológica clara.

 

O que ajuda a aumentar as chances de engravidar: nutrição e suplementação

A alimentação anti-inflamatória, rica em antioxidantes, oferece ao corpo os recursos para proteger os espermatozoides do dano oxidativo durante sua formação.

Os nutrientes com mais evidência para a saúde espermática são:

Zinco: participa diretamente da síntese de testosterona e da produção espermática. Deficiência de zinco está associada a queda na concentração e motilidade. Fontes alimentares ricas em zinco incluem carne vermelha magra, frutos do mar (especialmente ostras), sementes de abóbora e leguminosas.

Selênio: antioxidante essencial para a integridade estrutural do espermatozoide. A castanha-do-pará é a fonte alimentar mais concentrada de selênio no mundo, e uma a duas unidades por dia já oferecem quantidade suficiente. Não é preciso suplementar se o consumo alimentar for regular.

Vitamina C e vitamina E: antioxidantes que trabalham em conjunto para reduzir o dano oxidativo no esperma, especialmente a fragmentação do DNA.

Ômega-3: os ácidos graxos EPA e DHA participam da formação da membrana dos espermatozoides e têm papel na sua motilidade. Homens com parâmetros alterados frequentemente apresentam perfil lipídico espermático com baixo ômega-3. Para saber mais sobre suplementação com ômega-3: Suplementos para Fertilidade: O Que Funciona e O Que Não Funciona.

Coenzima Q10 (CoQ10): melhora a produção de energia mitocondrial nos espermatozoides, o que tem efeito direto sobre a motilidade. Estudos mostram melhora nos parâmetros espermáticos após suplementação de 200 a 300 mg por dia por pelo menos 3 meses.

A alimentação faz o trabalho pesado. A suplementação entra como complemento estratégico, especialmente quando há parâmetros alterados no espermograma.

Veja o papel da nutrição no guia completo: Alimentação para Engravidar: O Guia Nutricional Baseado em Evidências.

 

O que fazer nos próximos 3 meses

A preparação masculina ideal começa com um ponto de partida claro. O espermograma dá esse ponto de partida. Com ele em mãos, é possível entender o que precisa de mais atenção e ajustar a abordagem.

O roteiro básico para os 3 meses antes da tentativa ativa:

Mês 1: Pedir o espermograma com morfologia pelo critério de Kruger. Eliminar cigarro e álcool. Revisar hábitos de sono (meta: 7 a 8 horas por noite, horário regular). Iniciar zinco, selênio (ou garantir castanha-do-pará diária) e ômega-3.

Mês 2: Ajustar a alimentação com foco em antioxidantes: aumentar vegetais coloridos, reduzir ultraprocessados e açúcar. Incluir atividade física moderada regular. Reduzir exposição ao calor escrotal se houver hábitos de risco.

Mês 3: Tentar com intenção. Monitorar o período fértil dela para otimizar o timing. Repetir o espermograma após 3 meses se os resultados iniciais foram alterados.

Para o guia completo com o plano do casal: Como Engravidar Mais Rápido: O Que a Ciência Recomenda.

Perguntas Frequentes – Como o homem pode aumentar as chances de engravidar

O que é fator masculino na infertilidade?

Fator masculino é o termo usado quando a dificuldade para engravidar tem origem na saúde do esperma. Está presente em aproximadamente 40 a 50% dos casos de infertilidade conjugal. As principais alterações avaliadas no espermograma são concentração, motilidade e morfologia dos espermatozoides.

O que um espermograma avalia?

O espermograma avalia concentração, motilidade e morfologia dos espermatozoides, além do volume e pH do ejaculado. Os valores de referência são definidos pela Organização Mundial da Saúde. Um resultado alterado em um parâmetro não é diagnóstico definitivo: o exame deve ser repetido antes de qualquer conclusão.

Em quanto tempo a qualidade do esperma melhora com mudanças de hábito?

O ciclo completo de formação espermática dura cerca de 74 dias. Por isso, mudanças na alimentação, suplementação e estilo de vida levam aproximadamente 2 a 3 meses para aparecer no espermograma. A persistência é fundamental.

O calor prejudica a qualidade do esperma?

Sim. Os testículos precisam de temperatura cerca de 2°C abaixo da temperatura corporal para produzir espermatozoides com qualidade. Saunas, banheiras quentes, laptop na virilha e roupas íntimas muito apertadas elevam essa temperatura de forma crônica e podem comprometer a espermatogênese.

Tabagismo afeta a fertilidade masculina?

Sim, de forma significativa. Estudos mostram que homens que fumam apresentam concentração espermática 13 a 17% menor do que não fumantes, além de maior fragmentação do DNA espermático, o que aumenta o risco de falha na fertilização e aborto precoce.

 

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Sobre o autor

Murilo Murr é biomédico (CRBM 17665) e nutricionista (CRN3 51723), especialista em fertilidade natural baseada em evidências científicas. Acompanha casais no período pré-concepcional com foco em nutrição, suplementação e estilo de vida. É criador do Programa Casal Mais Fértil.

Aviso importante: Este conteúdo tem finalidade exclusivamente informativa e educacional. Não substitui avaliação médica, diagnóstico ou tratamento individualizado. Consulte um médico especialista em reprodução humana ou urologia para orientação personalizada.

Referências científicas

  1. Agarwal A, Baskaran S, Parekh N, et al. Male infertility. The Lancet. 2021;397(10271):319–333. https://doi.org/10.1016/S0140-6736(20)32667-2
  2. World Health Organization. WHO Laboratory Manual for the Examination and Processing of Human Semen. 6th ed. Geneva: WHO Press; 2021. Disponível em: https://www.who.int/publications/i/item/9789240030787
  3. Colagar AH, Marzony ET, Chaichi MJ. Zinc levels in seminal plasma are associated with sperm quality in fertile and infertile men. Nutrition Research. 2009;29(2):82–88. https://doi.org/10.1016/j.nutres.2008.11.007
  4. Safarinejad MR, Safarinejad S. Efficacy of selenium and/or N-acetyl-cysteine for improving semen parameters in infertile men: a double-blind, placebo controlled, randomized study. Journal of Urology. 2009;181(2):741–751. https://doi.org/10.1016/j.juro.2008.10.015
  5. Tremellen K. Oxidative stress and male infertility: a clinical perspective. Human Reproduction Update. 2008;14(3):243–258. https://doi.org/10.1093/humupd/dmn004