Indux e Duphaston são os dois medicamentos mais prescritos a casais que buscam engravidar no Brasil — mas cumprem funções completamente diferentes.

Um induz a ovulação; o outro sustenta o ambiente uterino após a ovulação. Confundi-los é erro comum, e usar um no lugar do outro não só não funciona como pode atrasar o tratamento correto.

Este texto explica como cada um funciona, quando são indicados, o que os diferencia e por que a automedicação com esses medicamentos apresenta riscos reais.

Este conteúdo descreve o funcionamento geral desses medicamentos com base em literatura científica. Dosagens, protocolos e indicações variam por caso.

Devem ser definidos exclusivamente pelo seu médico. Não inicie, interrompa ou modifique qualquer tratamento sem orientação profissional.

Para que servem os medicamentos para engravidar?

Quando um casal não consegue engravidar após 12 meses de tentativas — ou 6 meses, se a mulher tiver mais de 35 anos — o diagnóstico de infertilidade começa a ser investigado.

Uma das causas mais frequentes são os distúrbios de ovulação, que afetam cerca de 25% dos casos de infertilidade feminina, segundo a FEBRASGO.

Nesses cenários, o médico pode indicar medicamentos que atuam em etapas diferentes do ciclo reprodutivo:

  • Indutores de ovulação — estimulam o ovário a liberar o óvulo (ex: Indux/clomifeno, letrozol)
  • Progestágenos — sustentam a fase lútea, preparando o endométrio para receber o embrião (ex: Duphaston/didrogesterona, progesterona natural)
  • Gonadotrofinas — hormônios injetáveis usados em protocolos mais complexos de estimulação ovariana

Indux e Duphaston pertencem a categorias diferentes. Entender essa distinção é o primeiro passo para acompanhar o tratamento com mais autonomia.

Indux (citrato de clomifeno): como funciona

O Indux é o nome comercial do citrato de clomifeno no Brasil. Outros nomes conhecidos incluem Serophene e Clomid. É um modulador seletivo dos receptores de estrogênio — ou seja, não é hormônio, mas age no sistema hormonal.

Mecanismo de ação

O clomifeno funciona por um mecanismo de “engano” controlado:

  1. Ele bloqueia os receptores de estrogênio no hipotálamo (região do cérebro que regula hormônios reprodutivos)
  2. O hipotálamo, “achando” que os níveis de estrogênio estão baixos, aumenta a produção de GnRH (hormônio liberador de gonadotrofina)
  3. Isso estimula a hipófise a secretar mais FSH (hormônio folículo-estimulante) e LH (hormônio luteinizante)
  4. O FSH extra recruta folículos ovarianos e promove a maturação ovocitária, levando à ovulação

A ovulação costuma ocorrer entre 6 e 12 dias após o início do uso. O medicamento é tomado por via oral, geralmente do 2º ao 5º dia do ciclo menstrual, por 5 dias consecutivos.

Quando é indicado

O Indux é indicado para mulheres com anovulação (ausência de ovulação) ou ovulação irregular, especialmente em casos de:

  • Síndrome dos Ovários Policísticos (SOP) — a causa mais comum de anovulação
  • Ciclos menstruais irregulares ou muito longos
  • Ausência de ovulação sem causa identificada

Segundo a literatura, as melhores candidatas ao clomifeno são mulheres com SOP que apresentam níveis de estrogênio próximos do normal.

A taxa de ovulação com clomifeno é de aproximadamente 70%, embora a taxa de gravidez por ciclo seja menor — em torno de 10-15%.

Vale notar que estudos recentes comparando clomifeno com letrozol (outro indutor) sugerem que o letrozol pode apresentar taxas de natalidade ligeiramente superiores em mulheres com SOP.

A escolha entre os dois é uma decisão médica que depende do perfil de cada paciente.

Quer entender mais sobre como a ovulação funciona? Confira nosso guia completo sobre ovulação.

Duphaston (didrogesterona): como funciona

O Duphaston contém didrogesterona, um progestágeno sintético com estrutura muito semelhante à progesterona natural. Diferente do Indux, ele não induz ovulação — ele trabalha depois dela.

Mecanismo de ação

Após a ovulação, o corpo lúteo (estrutura que se forma no ovário) produz progesterona. Essa progesterona é responsável por:

  • Transformar o endométrio em um ambiente receptivo para o embrião
  • Manter a gravidez inicial nas primeiras semanas, até que a placenta assuma essa função
  • Regular o ciclo menstrual na segunda fase (fase lútea)

Quando a produção natural de progesterona é insuficiente — condição chamada de deficiência da fase lútea — o endométrio pode não se preparar adequadamente.

Isso dificulta a implantação do embrião e aumenta o risco de perda gestacional precoce.

O Duphaston supre essa deficiência ao mimetizar a ação da progesterona natural, com a vantagem de ser ativo por via oral (a progesterona natural tem absorção oral limitada).

Quando é indicado

As principais indicações do Duphaston em contexto de fertilidade são:

  • Infertilidade por deficiência de progesterona
  • Suporte da fase lútea em ciclos de indução de ovulação
  • Suporte da fase lútea em tratamentos de reprodução assistida (FIIU, FIV)
  • Abortamento recorrente associado a insuficiência lútea
  • Ciclos menstruais irregulares com fase lútea curta

Na prática clínica brasileira, é comum que o Duphaston seja prescrito junto com o Indux: o clomifeno induz a ovulação na primeira fase do ciclo, e o Duphaston sustenta a segunda fase, criando condições melhores para a implantação.

Indux vs. Duphaston: comparação direta

Característica Indux (clomifeno) Duphaston (didrogesterona)
Classe Modulador seletivo de estrogênio Progestágeno sintético
Ação principal Induzir ovulação Sustentar fase lútea
Quando age no ciclo 1ª fase (folicular) 2ª fase (lútea)
Via de administração Oral Oral
Duração típica de uso 5 dias por ciclo 10-14 dias por ciclo (ou contínuo)
Principais indicações SOP, anovulação Deficiência de progesterona, suporte lúteo
Efeitos colaterais comuns Ondas de calor, dor pélvica, alteração de muco cervical Sangramento leve, cefaleia, sensibilidade mamária
Risco principal Gestação múltipla (~8%), hiperestímulo ovariano Menor — bem tolerado na maioria dos casos

Esses dois medicamentos não são intercambiáveis. O Indux não sustenta a fase lútea; o Duphaston não induz ovulação. Cada um cumpre uma função específica dentro do protocolo.

Para entender melhor como a ovulação se conecta com a janela fértil, nosso guia completo sobre ovulação explica cada fase do ciclo em detalhe.

Outros medicamentos comuns no tratamento de fertilidade

Além de Indux e Duphaston, outros medicamentos aparecem com frequência nos protocolos de tratamento:

  • Letrozol (Femara) — inibidor da aromatase, alternativa ao clomifeno para indução de ovulação. Estudos sugerem taxas de natalidade ligeiramente superiores em mulheres com SOP
  • Gonadotrofinas (Menopur, Gonal F, Puregon) — hormônios injetáveis usados quando os indutores orais não funcionam ou em protocolos de FIV
  • Progesterona natural (Utrogestan, Crinone) — alternativa ao Duphaston para suporte da fase lútea, disponível em cápsulas vaginais ou orais
  • Metformina — usada em mulheres com SOP e resistência à insulina, pode ser associada ao clomifeno para melhorar a resposta ovulatória
  • HCG (Gonacor, Choriomon) — usado para desencadear a ovulação no momento ideal, mimetizando o pico de LH natural

Cada medicamento tem indicação específica. A combinação, dose e duração dependem de fatores como idade, causa da infertilidade, reserva ovariana e resposta ao tratamento anterior.

Induzir ovulação vs. suporte da fase lútea: duas etapas distintas

Uma confusão frequente é achar que “remédio para engravidar” é tudo a mesma coisa. Na realidade, o tratamento de fertilidade costuma envolver etapas complementares:

  1. Estimulação/indução da ovulação — garante que o ovário libere um óvulo maduro (Indux, letrozol, gonadotrofinas)
  2. Desencadeamento da ovulação — determina o momento exato da ovulação (HCG)
  3. Suporte da fase lútea — prepara e mantém o endométrio receptivo após a ovulação (Duphaston, progesterona)

Dependendo do caso, o médico pode prescrever apenas uma etapa ou todas. Em ciclos de relação sexual programada ou inseminação artificial, o protocolo mais comum no Brasil combina indução com clomifeno + suporte com Duphaston.

Em FIV, o protocolo é mais complexo e envolve gonadotrofinas injetáveis em doses maiores, com suporte lúteo frequentemente feito por progesterona vaginal ou injetável.

Por que suplementos sozinhos não resolvem

Antes de chegar ao medicamento, muitas pessoas tentam suplementos para fertilidade — ácido fólico, mioinositol, vitamina D, CoQ10.

Alguns têm evidência científica razoável (como o ácido fólico para prevenção de defeitos do tubo neural). Outros, não.

Suplementos não substituem indutores de ovulação quando há anovulação diagnosticada. Se o ovário não está liberando óvulos, nenhum suplemento vai resolver isso.

É como tentar abastecer um carro com o tanque furado. O problema precisa de intervenção médica, não de complemento nutricional.

Dito isso, alguns suplementos podem ser complementares ao tratamento. Converse com seu médico sobre quais fazem sentido para o seu caso. Para mais informações, veja nosso artigo sobre suplementos e fertilidade.

Riscos da automedicação: alerta real

Esse é o ponto mais importante deste texto. Indux e Duphaston são medicamentos controlados que exigem prescrição e monitoramento médico. A automedicação apresenta riscos concretos:

  • Hiperestímulo ovariano (SHO) — uso de indutores sem monitoramento pode causar crescimento exagerado dos ovários, dor intensa e internação. Mais comum com gonadotrofinas, mas possível com clomifeno
  • Gestação múltipla — o clomifeno aumenta a chance de gestação gemelar em aproximadamente 8%. Sem acompanhamento, gestações múltiplas sem suporte adequado têm riscos maiores
  • Gravidez ectópica — induzir ovulação sem verificar a permeabilidade das trompas pode aumentar o risco de implantação fora do útero
  • Uso em gestação inicial — o Indux é contraindicado na gravidez. Sem teste de gravidez antes de cada ciclo, há risco de exposição fetal inadvertida
  • Máscara de diagnóstico — usar medicamentos sem investigação prévia pode atrasar o diagnóstico de causas mais sérias de infertilidade, como obstrução tubária, endometriose grave ou fator masculino

O acompanhamento médico inclui ultrassons seriados para monitorar o crescimento folicular, exames hormonais para ajustar dose, e testes de gravidez antes de cada novo ciclo. Sem isso, o tratamento é feito às cegas.

Quando procurar especialista

Se você está tentando engravidar e se identifica com alguma dessas situações, vale procurar um especialista em reprodução humana:

  • Ciclos menstruais muito irregulares (acima de 35 dias ou variando mais de 7 dias entre ciclos)
  • Ausência de menstruação por mais de 3 meses
  • Mais de 12 meses tentando sem sucesso (ou 6 meses, se tiver mais de 35 anos)
  • Diagnóstico prévio de SOP, endometriose ou outra condição que afete a ovulação
  • Uso atual de medicamentos para fertilidade sem acompanhamento com ultrassom

O diagnóstico correto é o que direciona o tratamento correto. E o tratamento correto é o que respeita o seu corpo e o seu tempo.

Este conteúdo é informativo e educacional. Não substitui consulta com profissional de saúde qualificado. Cada caso é único — converse com seu médico antes de tomar decisões sobre sua saúde reprodutiva.

Quer entender o tratamento que faz sentido para o seu caso? O Programa Casal Mais Fértil acompanha casais em cada etapa da jornada, com orientação baseada em evidência e suporte especializado.